Cem metros com bandeja

Novembro 11, 2009

Na impagável Corrida dos Garçons teve de tudo: campeão querendo folga e espectador aproveitando cerveja quente

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Velocidade nas pernas tem nome: é o jamaicano Asafa Powell, de 23 anos, atual recordista mundial da prova de 100 metros rasos, distância que já percorreu em meteóricos 9,77 segundos. Agora, para tentar fazer o mesmo levando uma bandeja nas mãos e sem derramar uma gota de alguns copos de cerveja até mesmo Asafa pediria auxílio a um especialista. Ele é Apolônio Pereira dos Santos, 49 anos, com pelo menos 29 deles dedicados à profissão de garçom. Veterano no ramo, Popó, como é conhecido pelos clientes do restaurante Jardim das Delícias, no Pelourinho, tem a elegância de um dançarino de valsa com a vitalidade de um atleta olímpico.

Pelo menos, era isso que ele queria provar ao se inscrever entre os 53 concorrentes da II Corrida dos Garçons, realizada ontem na Avenida Oceânica, na Barra. Com a gravatinha borboleta impecável, a calça escura de linho e uma camisa com o número de sua inscrição (28), ele era o decano entre os competidores, um atleta master que ainda não pensa em pendurar as chuteiras. “Estou aí tentando superar essa juventude toda”, declarou, humilde, apontando para os adversários, cuja maioria tem metade de sua idade.

A resposta foi dada ainda no período de aquecimento para a grande prova, que virou uma atração peculiar na chamada Rua do Lazer, a iniciativa que transforma aquela região da Barra em um recanto para pedestres aos domingos. A partir daí, o que vai se ver é um cardápio reunindo atletas do bem servir em pequenas disputas pela consagração e uma platéia atônita, alguns gargalhando com a surreal competição na orla.

A primeira etapa é explicar as regras. A árbitra Sinai Lopes simplifica ao máximo para não criar problemas: quem chegar em primeiro, segurando uma bandeja com cinco latas de cerveja em uma mão e mantendo a outra mão atrás das costas, é o vencedor. Serão três baterias e os melhores colocados de cada uma delas passam para a final. Compenetrado, José Alberto Gomes da Silveira, funcionário do refinado japonês Soho, lembra de todo o equilíbrio que precisa exercitar para levar um prato de tempura aos seus clientes. “É muito difícil porque é tipo um leque alto de camarão e legumes. Aí, se bate um vento, cai tudo no chão”, avalia ele, que não esquece o tropeço infame que tomou quando trabalhava na Casa Oriental e resultou em Yakissoba espalhado por todo salão e um constrangimento que não tinha como limpar.

200 couverts

Próximo a ele, Jardel Batista Braga quer esconder o cansaço de quem trabalhou até 4h30 e apenas quatro horas depois já tinha despertado para disputar um lugar no pódio. A madrugada foi trabalhosa no Trapiche Adelaide, só ele servira 200 couverts. “Mas dessa vez, eu não quis deixar de participar. No ano passado, me inscrevi, mas não pude competir, porque cheguei atrasado”, sustenta o infatigável Jardel.

A organização da prova define que o percurso vai ter pouco mais de 100 metros no sentido Farol-Cristo. Nessa hora, entra em cena Edinei Lima, 29 anos, há seis como garçom do restaurante Nacif, no Iguatemi. “É preciso inverter a direção da corrida, por causa do vento”, avisa ele, também compositor de músicas de axé, já prevendo as derrapagens e vôos de latinhas. Edinei é atendido e falta pouco para o início.

Ao contrário dos corredores profissionais, que não abdicam de alongamentos nos momentos que antecedem a largada, a turma da bandeja aproveita para ajeitar a gravatinha e verificar se o sapato social pode derrapar na pista de asfalto. Nesse momento, o presidente da seção baiana da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), José Ronaldo Teixeira, começa a distribuir as latas de cerveja entre os concorrentes. A competição foi uma idéia de encerramento lúdico para o festival gastronômico Brasil Sabor, evento promovido simultaneamente pela Abrasel em Salvador e mais 70 cidades, durante cinco semanas. “O garçom é um dos principais atores de nosso segmento e faz o sucesso de qualquer gastronomia. Nada mais justo do que prestarmos essa homenagem”, elogia Teixeira, que providenciou uma televisão de 29 polegadas, uma bicicleta de 18 marchas e um aparelho de DVD para premiar os três primeiros colocados.

É dada a largada para a primeira bateria. Um dos competidores chega a perder os calçados, outro tropeça e derruba uma bandeja, três chegam empatados aos trancos e barrancos e um deles atropela uma jovem na linha de chegada. Tudo isso em menos de 15 segundos. O comerciante Luciano Magno, de Feira de Santana, que assistia a tudo atento, dá um sermão no seu candidato favorito. “Rapaz, você vinha bem, mas se desesperou e jogou tudo para o alto”, critica, falando para Edvaldo de Jesus, garçom da Companhia da Pizza, que ouve resignado.

Cerveja quente

Um outro espectador mais ágil incorpora a filosofia do “quanto pior, melhor”. Paulo Ramos, 65 anos, aproveita Marcos se desequilibrando, Juca tropeçando, Laércio comemorando, ou qualquer outra ação que tenha como resultado uma lata de cerveja caída no chão. Não importa a temperatura, se o recipiente rola pela avenida, ele vai atrás, avidez em pessoa, buscando a saciedade etílica. Antes, dá uma esfregadinha na camisa para tirar o excesso de areia, destampa a lata e bebe em goles generosos. “Cerveja boa é aquela na temperatura ambiente, ao estilo alemão”, saboreia, deixando escorrer um pouco do líquido por lábios e camisa.

Depois da segunda bateria, Marcos Paulo Souza Ramos, do Caranguejo do Sergipe, cobra dos organizadores um tira-teima, um replay, qualquer coisa que lhe dê o primeiro lugar. Segundo ele, o vencedor da prova não estava o tempo todo com uma das mãos para trás. Além dos gritos dos vencedores parciais e das reclamações aos juízes, a sonoplastia da corrida maluca tem a participação de uma charanga de nove músicos, comandados pelo maestro Veléu Cerqueira. A trilha sonora faz recordar sucessos do ufanismo desportivo: “Vamos todos juntos/ pra frente Brasil, Brasil/ Salve a Seleção”.

“A iniciativa é boa para mostrar que os restaurantes também têm atletas. E não apenas praticantes de halterocopismo”, brinca o bem humorado Sérgio Bezerra, dono do não menos irreverente Habeas Copos, o tradicional ponto de encontro de boêmios na Barra. Já os competidores não se entendem quanto as condições climáticas. Francisco Ednar, da pizzaria Quattro Amici, reclama da dificuldade de se equilibrar por causa do vendo, mas Carlos Augusto da Fonseca, do Bahia Café, garante que o vento sopra a favor dos mais talentosos.

O motivado Paulo Ramos deixa o papel de espectador imparcial de lado epassar a torcer fervorosamente pela derrubada de latinhas de cerveja, em uma apropriação literal da expressão “entornar o caldo”. Ele usa toda a sua sabedoria fermentativa para meditar sobre o grau de pureza da cervejinha. Como se fora um alquimista de botequim, requisita aos organizadores uma taça, dá uma lavada com água e despeja o áureo líquido para fazer considerações sobre a densidade da espuma e a ausência de bolinhas. “Isso é que é uma fermentação perfeita. Puro malte”, suspira.

De tão concentrado em sua filosofia de beberrão, ele nem percebe que Laércio Reider já ganhou o título de campeão geral, depois de menos de 30 minutos de competição. Funcionário do restaurante Grande Sertão, ele vai logo cobrar do patrão, coincidentemente o mesmo José Ronaldo Teixeira, um prêmio tão valioso quanto a TV de 29 polegadas que levará para casa. “E aí, chefe, vão ser quantos dias de folga mesmo?”

Depois de subir ao pódio (sem direito a estouro de champanhe), ao lado Francisco de Sales (restaurante Pereira), Renato Silva (Cheiro de Pizza) e Carlos Augusto (aquele ajudado pelo vento), Laércio precisa atender a imprensa em uma coletiva de improviso. Manda um recado para seus fãs, Laércio: “Aos patrões, agradeço a oportunidade. A todos os garçons, desejo felicidades e que treinem mais para o próximo ano”. Isso mesmo, sem falsa modéstia. E, se na próxima edição, esses eternos coadjuvantes da gastronomia produzirem um menu tão divertido quanto o da corrida desse ano, vale até cobrar ingresso na forma do popular 10% de gorjeta.

Pensador sem lar

Novembro 11, 2009

Morando na rua há quase dois anos, Carlos de Albuquerque se dedica a uma filosofia própria de aversão ao trabalho e aos banhos

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

De todos os escritores de Salvador, nenhum tem tanta dificuldade para tomar um banho. De todos os moradores de rua da capital, não se encontraria outro capaz de lidar tão bem com emails, ou citar algumas das principais teorias do papa americano da auto-ajuda, Dale Carnegie, no best seller mundial Como Evitar Preocupações e Começar a Viver. Para Carlos de Albuquerque, normal é dormir no Largo dos Aflitos todas as noites e vagar pela cidade, andando até seis horas por dia, com uma mochila de 20 quilos nas costas. Normal é uma parada cultural obrigatória para ler jornais na Biblioteca Pública dos Barris. Anormal é fazer o asseio corporal com água e sabonete ou então conseguir reunir, ao mesmo tempo, três cédulas de qualquer valor na carteira onde guarda seis canetas e documentos, jamais uma nota de 10 reais.

Carlos Alberto de Albuquerque, um moreno cabeludo de corpo esguio, com 34 anos e meio, gosta de se definir como um artista andarilho, mas está próximo de um filósofo nômade, uma espécie de ouvidor da escumalha, poeta dos sem-teto. Com uma confessada aversão a duas das principais instituições da sociedade ocidental (o emprego e o banho), ele garante que seu estilo de vida é uma opção pessoal. Mais do que isso: é uma resistência à opressão do sistema. “Não quero me render ao sistema e arrumar um trabalho. Quando eu quis, não achei, agora não quero”, rebela-se. Sobre a parte menos cheirosa de sua filosofia anti-capitalista, ele é ainda mais sucinto: “E quanto aos banhos, eu gosto é de facilidade, não quero complicação. Quando tinha água no Passeio Público, eu tomava de oito em oito (dias)”, revela Carlos, que pode ficar muito bem passando até 30 dias sem enxaguar os longos cabelos ou minimizar a murrinha das andanças cotidianas.

Só que Carlos de Albuquerque está além de um exótico indigente, pouco afeito às obrigações da carteira assinada e aos frescores de uma chuveirada. Primeiro, não gosta de ser chamado de mendigo, porque não vive por aí pedindo dinheiro, no máximo esmola um pouco de atenção para os seus escritos. Ele escreve com regularidade – e raros erros de português – mistos de ensaios e crônicas com o fundo de análise social. Os temas escolhidos vão desde a obsessão pela pontualidade (constantemente frustrada na Bahia) até o papel social das ligações a cobrar, passando pela banalização do aplauso (“eu mesmo já me senti constrangido, ao ter que aplaudir um evento que não tocou na minha emoção”) e desarmamento, corrupção e sonegação fiscal.

Críticas da construção

O conjunto da obra composta por 11 textos rendeu uma edição própria intitulada Críticas da Construção. O volume, editado com durex para colar as folhas e cópias xerocadas de páginas de computador impressas, tem preço de R$6, mas não serve para dar vida ao inexistente orçamento de Carlos. “Não saio por aí vendendo na rua. Apenas ofereço às pessoas mais chegadas, que sei que podem gostar”, desconversa.

O dia para Carlos de Albuquerque, um homem avesso a obrigações e a receber ordens, começa às 5h30, quando acorda no batente da sede da Delegacia do Ministério da Agricultura, no Largo dos Aflitos. Com a chegada dos primeiros funcionários, o sono dele é interrompido. A solução é mudar de cômodo para a pracinha, onde termina de repor as energias até umas 8h. Depois do repouso, carrega a sacola (antes eram duas mochilas com roupas e pertences) para o café da manhã, oferecido na ladeira de Santana pelos seguidores de Nair Saback, que fornecem refeições para moradores de rua. Em seguida, ruma para o setor de periódicos da Biblioteca dos Barris, onde se atualiza com os jornais do dia (“Adoro um noticiário”). Como hábito, checa emails em um dos três pontos favoritos: a Sala do Cidadão, no SAC do Shopping Barra, o projeto Tabuleiro Digital, da Faculdade de Educação da UFBa, ou a loja Sanchy Serviços de Informática, que ele considera uma espécie de mecenas. Dos três, opta mais pelo shopping, porque depois do compromisso intelectual pode usar o banheiro para atender aos apelos físicos digestivos. “Costumo dizer que sou patrocinado pelos shoppings Barra, Center Lapa e Piedade, pois eu só uso os banheiros deles”, brinca Carlos.

No Lapa, por exemplo, o trajeto dele já é conhecido pelos seguranças. Entra, folheia alguns volumes na livraria Civilização Brasileira e depois vai sempre ao banheiro do primeiro andar, porque morador de rua também tem direito a eleger o troninho preferido. Na hora do almoço, costuma aproveitar a caridade de alguma igreja ou simplesmente não come. À tarde, procura mais um lugar para ler ou então uma sessão cultural grátis, como a exibição de algum filme na sala Alexandre Robatto. “Assisti recentemente Cazuza e me identifiquei muito”, confessa. De noite, não abre mão da sopa servida no Saback. Mais tarde, vai em busca dos eventos sociais mais badalados, que previamente selecionara nas colunas sociais.

Entre celebridades

O desejo não é tanto pela oportunidade de uma boca-livre, mas para estar em contato com “as pessoas que produzem nesta terra”. Nesse circuito da elite, Carlos leva junto o mochilão e nenhuma solenidade. “Fui no lançamento do livro de Sidney Quintella e até pedi desculpas a ele por não poder comprar o livro. Mas já tomei um impeachment numa festa de Lícia Fábio. Também… era no Soho”, entrega o bem humorado sem-teto.

A vida de Carlos Alberto de Albuquerque nem sempre foi uma sucessão de travesseiros de pedra e refeições por caridade. Filho adotado de uma família em Brasília, ele levava rotina de classe média. Nunca foi bem nos estudos (repetiu algumas vezes a 3ª, 6ª e 8ª séries do ensino fundamental e o 1º ano do ensino médio), mas era considerado inteligente, apesar de desatento. Possivelmente a vocação errante tenha surgido aos sete anos, quando a primeira filha legítima do casal nasceu e ele começou a ser preterido.

Com o fracasso nos estudos interrompidos antes da conclusão do secundário, arrumou serviço na construção civil, depois se alistou no Exército e até chegou a virar um promissor vendedor. “Em três semanas, passei de 14º a 4º em vendas”, diz, sobre a temporada em uma loja de tecidos em Brasília. “Mas depois de 26 dias, pedi demissão. Meu negócio não era aquele”, reitera o antigo pretendente a uma vaga de promotor de vendas em consórcio de carros, por achar “que dava status”.

A chegada a Salvador teve ainda uma viagem para São Paulo com apenas R$3 no bolso e uma época como morador em Feira de Santana, na Feira do Rolo, local onde “só andava bicho solto”. A vinda para a capital fora motivada pela necessidade de cantar em um trio elétrico. Cantor profissional, com cadastro em entidade de classe e tudo, Carlos ainda pensa em realizar o sonho. Chegou a concorrer ao troféu Caymmi em 2003, época em que ainda morava em um albergue público. O auge da carreira artística ainda não chegou, mas ele vai se enturmando aos poucos com a fama. Já foi figurante em espetáculo no Vila Velha, fotógrafo amador e cantor de bandas sem repercussão.

Com sua inteligência sem CEP e a erudição sem endereço para correspondência, ele até antecipa a resposta para a pergunta sobre o que as pessoas vão pensar de sua vida. “Que eu sou um vagabundo, essa sempre é a primeira impressão. Mas não tenho medo do que podem falar, para mim o importante é o registro”, desafia. As dificuldades da rua são muitas, só que Carlos tem um ar profético em sua obstinação. “Estou agüentando firme, sem me corromper. Não bebo, não fumo, não uso drogas”. E como se encerrasse um de seus textos impressos artesanalmente, ele resume um pouco da experiência de vida que optou para si. “Sou ajudado, mas também ajudo. Não financeiramente, mas com palavras e conselhos. Virei um psicólogo autodidata”. Assim como os livros de auto-ajuda que ele gosta de ler, não há como negar: Carlos, com todo o trocadilho possível, propaga qualquer ramo da psicologia barata.

O Rei da pamonha

Novembro 11, 2009

Genivaldo Santana Guerreiro faz arte tentando vender os bolinhos que fabrica com dois filhos

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Salvador tem pelo menos dois auto-intitulados reis da pamonha. O primeiro (não por critério de antiguidade de reinado, mas por ordem de divulgação institucional da marca) se expõe em placas de publicidade, dá nome aestabelecimento comercial e tem até filiais espalhadas por postos de gasolina na cidade. O outro vai tentando conquistar o título literalmente no grito. Com a ajuda de dois dos quatro filhos, Genivaldo Santana Guerreiro percorre a cidade em uma trilha diária de negócios mascatais e apresentações mambembes para vender, até o início de cada noite, 500 bolinhos de milhos ou carimã.

A parte comercial do seu trabalho é evidente. Com a ajuda de um megafone, ele divulga suas delícias itinerantes dispostas em dois panelões metálicos que não pesam menos de 20 quilos. Um deles vai na cabeça do próprio Genivaldo como coroa de esforço e superação. O outro é conduzido pelos pequenos em um carrinho de feira. A parte artística de sua estratégia é demonstrada sempre que pára em um local com muito potencial de clientes.

Monarca do gênero de marketing plebeu, Genivaldo adaptou a palavra pamonha para uma dúzia de letras de músicas as mais populares possíveis. O melo da Eguinha Pocotó, por exemplo, virou: “Vou levando uma pamonha/ Pra titia e pra vovó/ Só não posso esquecer/ Da pamonha da vovó”. E não se trata apenas da letra de uma versão cantada a lapela com o megafone, tem também o coro infantil, coreografado como se fossem lacraios da indústria de comidas típicas. “Pra vovó/ pra vovó/ pra vovó/ pra vovó”, repetem Lucas, 14, e Rogério Guerreiro, 10 anos, cavalgando na sela imaginária de um eqüino nervoso.

Com essa breve e pouco detalhada descrição já é possível imaginar o tipo de comoção pública provocada pelas intervenções do trio no meio da rua. No Parque São Brás, na Federação, os moradores acodem às janelas dos prédios de três e quatro andares, como se estivessem saudando a Família Real embalada em palha de bananeira. Em uma praça do bairro de Tancredo Neves, fazem um círculo para aplaudir e pedir um petisco (R$0,50 o de carimã, R$0,70 o de milho). No trecho do Terreiro de Jesus e Praça da Sé, os turistas tiram fotos, sorriem, mas dificilmente abrem a carteira, e os funcionários do Centro Histórico compram a pamonha como lanche, mas sempre pedem a cortesia de um show especial.

 

Repertório de sabor

Genivaldo e seu principado têm ensaiadas mais de 20 músicas, preferencialmente recriações de pagodes baianos e canções de arrocha. Uma delas foi inspirada na obra chamada Guitarra Chorona, uma campeã em pedidos de bis ao grupo Novo Ton. “Êta menina chorona/ Quer pamonha para merendar/ Mas quando tô aqui ele não quer/ Chora menina pra ela comprar”. Ou então o pagodão Uisminorfay, cujo refrão virou simplesmente: “E quem não vai? Você vai perder… E quem não for? Você vai comprar”.

Com essas composições coreografadas, mais do que clientes, o humilde rei da pamonha vai ganhando súditos. “Agora que eu comprei a pamonha, posso ouvir um arrocha?”, suplica o protético Vítor Campos da Silva, em plena Praça Municipal. Em frente à Cruz Caída, um grupo de paulistas não entende muita coisa daquele trio vestido com uniforme nas cores de uma espiga de milho. Só depois de ouvirem um dos hinos à pamonha, eles decidem experimentar. “É gostoso, mas acho que engorda”, preocupa-se a psicóloga paulistana Sônia Regina Silva, entregando o acepipe para a filha depois do segundo pedaço.

Para garantir o sabor do produto, a família real pamonhal trabalha muito unida. A fabricação é própria e os três costumam dividir as tarefas na linha produção da iguaria. Praticamente todos os dias, Genivaldo vai na feira de São Joaquim às 5h45 para garantir a compra da carimã fresca (“o milho eu até encontro fácil, mas carimã só de madrugada”). No retorno, os meninos já estão a postos para fazer a mistura que envolve cravo e açúcar mascavo. Enquanto isso, vão treinando o repertório, numa passagem de som de olho no fogão.

 

Olhares tristes

As crianças aprimoram os passos sinuosos das danças e os refrões que entremeiam as músicas. Ficam a tal ponto condicionados que mesmo quando o pai está recitando a letra para que seja copiada (e não propriamente cantando), eles reagem automaticamente (“Olha a pamonha tá quentinha… aiiii”), completando uma estrofe. Lucas e Rogério dizem gostar do que fazem e demonstram realmente um ímpeto de artista quando atuam. Mas não dá para explicar os olhares tristes de ambos, mesmo quando sorriem timidamente. O menor, Rogério, na simplicidade dos 10 anos, quando perguntado sobre o que planeja ser adulto, surpreende: “quero ser igual a meu pai, fazer o mesmo que ele”.

Genivaldo começou vendendo água gelada na Feira de São Joaquim com 15 anos. Para se destacar na babilônia de ambulantes, passou a abordar fregueses com frases inesperadas, ou até mesmo usando um nonsense para produtos tão baratos: “aceitamos vale-transporte, cartão de crédito e ainda parcelamos em 120 dias sem juros, sem consultar SPC nem Serasa”. O estilo inovador foi sendo adaptado para cada novo item comercial da sacola de Genivaldo. “A criatividade foi o único caminho que achei para sobreviver. E esse Jesus que indicou”, responde. Hoje, aos 36, precisa se mexer para conseguir a renda que sustenta os quatro filhos (além de Lucas e Rogério, Patricks e Jefferson) e mais os quatro da rainha com quem mora há cinco meses.

A casa própria no bairro de São Cristóvão, ele considera como um palácio. “Trabalhei seis meses com carteira assinada, em empresa de serviços gerais, e nunca consegui sair do aluguel”, relembra Genivaldo, “foram as pamonhas que deram minha casa”. Depois de conquistar o domicílio, falta muito pouco para a realização completa, já que o trabalho está dando para sustentar “as oito bocas e ainda pagar água e luz”. Ele não vê a hora de ser realmente protagonista de propagandas na televisão. Alguns convites até surgem, mas nada se concretizou. E o desejo mais forte é gravar um CD com as composições que estimulam apetites e sorrisos nas ruas por onde o trio passa, desde Cajazeiras até o Campo Grande.

As músicas já estão prontas falta só a verba para a gravação ou então a intervenção de um produtor artístico que queira sair da dieta dos talentos descartáveis. Quem sabe depois dessa Genivaldo e seus filhinhos amestrados não ganham um novo trono e passam conquistar súditos não mais pelo estômago e sim pelo ouvido?

Decifra-me

Novembro 11, 2009

Adenilton Pereira Ramos não move um músculo para sobreviver e ainda tem que agüentar tapão na cabeça calado

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Aos nove anos, quando perdeu o pai que mantinha uma família com 10 filhos em Camacã, no sul da Bahia, Adenilton Pereira Ramos ouviu de muita gente que iria precisar se mexer para ajudar no sustento dos irmãos. Abandonou os estudos na 3ª série primária, tentou a carreira como lavrador mirim a exemplo dos irmãos, mas em pouco tempo percebeu que o talento estava justamente em não mover um músculo para conseguir trabalhar. Desde criança, Adenilton descobriu a habilidade para algo que não sabia nem o nome, mas que consistia em imitar uma estátua com o máximo de fidelidade pétrea.

A vocação aprimorada em festas infantis virou passaporte para um trabalho itinerante, desempenhado nas ruas de Recife, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e, desde o ano passado, Salvador. A inércia programada de Adenilton é muito bem recompensada. Para ficar imóvel durante sete ou oito horas por dia, ele ganha até R$700 por semana dos passantes que ora se espantam, ora se divertem, com sua performance minimalista em frente à Santa Casa de Misericórdia, na Praça da Sé.

Vem Adenilton andando do Pelourinho na companhia de outro artista de rua, o palhaço Pitombinha. Caminha em trajes que lembram uma espécie de andróide de ficção dos anos 50, totalmente pintado de prata e com a pele coberta por purpurina do mesmo tom. Para compor o personagem, gasta um frasco do pó metálico a cada três dias, um investimento de R$7, que vira R$70 no final do mês. A conversa sobre amenidades, típica de quem tem 24 anos, dura só o suficiente para ele montar o palco de seu show solitário.

Um cartaz no chão pede a cumplicidade de transeuntes para a chamada Arte Estática. Um cilindro de metal induz às contribuições. Quando Adenilton coloca os óculos esportivos com lentes totalmente espelhadas que não permitem saber para qual lado olha ou se está piscando, ele emudece e trava. Uma interpretação de mármore, em que até a respiração é uma coadjuvante indesejável.

“Olha a estáuta”

Geralmente, pode ficar intervalos de até 20 minutos sem mover os dedos da mão esquerda sempre apoiados em nada ou sem nem mesmo aparentar que usa o diafragma para inspirar e expirar. Aproveitando a sombra vespertina oferecida pelo prédio da Santa Casa de Misericórdia, ele aguarda a passagem de algum curioso. O menino Gabriel, de cinco anos, aponta: “mãe, olhe a estáuta (sic)”. A doméstica Selma Santos Figueira sorri e aposta com o filho que aquela “estáuta” se move. Coloca uma moeda de 10 centavos no cilindro e o som da nica parece despertar o artista de sua imutabilidade de quem olhou para medusa.

Adenilton realiza uma coreografia robotizada com os passos de Moonwalker, imortalizados por Michael Jackson, para o êxtase infantil do menino Gabriel. Depois de 10 segundos de movimento e o conseqüente recolhimento à posição estática, o garoto oferece à mãe todas as moedinhas guardadas no bolso da bermuda para que o espetáculo seja repetido.

A desempregada Tereza Viana dos Santos, na dúvida dos 62 anos, também paga pra ver se está diante de carne e osso ou de matéria inanimada. “Do mesmo tempo, parecia uma pessoa. Do mesmo tempo, parecia uma estátua. Fiquei em dúvida”, admite, ainda com a expressão incrédula de quem testemunha a aparição de um óvni ou a redução nas taxas de impostos. “Ai, ai, a gente andando é que vê as coisas”, completa.

Com seu ofício que é o oposto de andar, Adenilton também tem descoberto novos horizontes. Já conheceu as principais capitais do país e recebeu convite de uma turista para se apresentar na Itália. Também foi sondado por uma loja de eletrodomésticos da Avenida Sete de Setembro para trabalhar em frente da vitrine. Mas a oferta não teve nada de tentadora. “Trabalhar o dia todo para ganhar R$15? Às vezes, eu consigo R$50 só em uma tarde aqui”, confidencia ele, que envia para a família em Camacã até R$500 por mês.

Solidariedade de baiano

De todos os lugares que já visitou, Salvador é considerada a cidade mais acolhedora. “Não são os turistas que me prestigiam mais, são os baianos. Tem gente humilde que não tem o que comer e tira da boca para me ajudar”, reconhece. E mesmo com essa comovente identificação, ele pensa em mudar para Brasília depois do carnaval. Planeja passar lá o último ano de trabalho até a aposentadoria anunciada. Adenilton tinha decidido largar o ofício aos 25, em grande parte por causa dos problemas de pele provocados pela constante cobertura da purpurina. Os danos foram até minimizados depois que descobriu um creme protetor que usa antes de se banhar de brilho.

Só que ele permanece com o plano de mudar de vida. Acha que daqui a 12 meses terá juntado dinheiro suficiente para montar uma lojinha de confecções e óculos, comprar um terreno e fazer uma casa para a família em uma zona mais afastada do centro de Salvador. Por enquanto, ele aluga um quarto de pensão no Taboão, por R$10 a diária. Quando tem companhia feminina, o valor dobra.

Aliás, é digno de curiosidade saber como é o flerte de quem passa metade do dia útil estacionado em uma mudez solene. Adenilton não se queixa da falta de parceiras, avisa que o exótico desperta um fetiche feminino, mesmo sem dizer exatamente com essas palavras. Durante sua performance, é fácil comprovar. Uma jovem toca na mão esquerda do mímico de um coma, como se estivesse em sintonia com o “decifra-me ou devoro-te” da Esfinge. Faz duas carícias para se certificar de que é humano e depois sorri, antes de ir embora. O repórter comenta para o artista: “é assim que começa, não é, pai?” E ele agüenta o sorriso de orgulho e balança um milímetro da cabeça para responder afirmativamente.

Mordida de formiga

Do outro lado da rua, o segurança Dil Edson Santos de Jesus, que trabalha há um mês no The Dubliner´s Irish Pub, vê cenas parecidas todos os dias. “Tem sempre umas turistas que gostam de ficar imitando ele, ou crianças que se assustam quando ele se mexe”, relata Dil, que é um dos principais parceiros de conversa de Adenilton, quando este pára de trabalhar, depois das 18h.

Só que nem tudo é paquera e controle respiratório no cotidiano deste intérprete da impassibilidade. Às vezes, o calor é muito forte e com o suor escorre metade da maquiagem do rosto. Às vezes, uma formiga dessas da cabeça grande e preta, sobe pelo tênis, entra pela calça e dá uma ferroada que exige resistir sem dar um tapinha na perna ou um gemido de dor. Às vezes, tem também algum espírito de porco que passa, dá um cachação na nuca e sai correndo, sem que a “estátua” esboce uma reação para não comprometer o profissionalismo. Mas o pior mesmo foi quando um rapaz aparentemente interessado no trabalho, aproveitou um momento de total concentração e levou todo o dinheiro e documentos de Adenilton, que nem se mexeu – nesse caso, mais pela surpresa do que por sua tendência a incorporar o espírito de soldado da Guarda Real do Palácio de Buckingham.

Estes fazem parte de uma exceção. A maioria dos que conhecem o trabalho reage com admiração e respeito. Como os operários da montagem de andaimes do carnaval, que toda vez que passam com uma kombi pela Praça da Sé costumam dar uma parada para depositar uns trocados. “Ele é gente boa e faz um trabalho decente”, justifica José Bispo, depois de saltar rapidamente da Kombi. Adenilton, velho conhecido do pessoal, não responde com palavras. Faz apenas uma mímica especial andando até o grupo, ou concedendo um aperto de mão mecanicizado.

Sem esboçar ressentimento, o gari Roberto Rodrigo Santos, conduzindo uma lixeira com rodinhas, constata: “ele ganha dinheiro parado, eu tenho que correr atrás”. Está claro que Adenilton só concede entrevista antes de iniciar o trabalho. Por último, ele quer saber se o jornal circula no estado todo. Se chega, por exemplo, até a região de Porto Seguro, onde moram os parentes. Chega, sim, e com o exemplar vai a história de paralisia e silêncio de Adenilton. Sem sair do lugar, esse artista vai é longe.

Ensaio sobre a lucidez

Novembro 11, 2009

Edmundo Roberval Leite, 101 anos, toma cervejinha, trabalha normalmente e parece que tem a metade da idade sem entregar a fórmula da juventude

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

No mundo perfeito, Edmundo Roberval Leite e seu mais de século deimperturbável profissionalismo mereceriam uma manchete de jornal a cada ano, uma página impressa com foto e um laudatório da sua trajetória, apenas para reverenciar a vitória do bom humor de uma existência sobre a carrancuda face daqueles que têm a alma envelhecida, um espírito juvenil que é recheio etéreo da pele a cada dia mais enrugada e do corpo que se dobra em si mesmo, oprimido pela gravidade do tempo. Com uma disciplina de estagiário que tenta segurar o primeiro emprego, seu Edmundo inicia o dia no metódico café da manhã seguido das obrigações de escritório, que são organizar as carteiras de seguro de quase 70 clientes, verificando pendências, vencimentos e fazendo contatos com a filial para checar dados, um trabalho todo realizado no primeiro turno do dia, no próprio apartamento no Garcia, lendo e conferindo os dados de cada um anotados por seu próprio punho em uma caderneta com caligrafia detalhista. Há quase 40 anos, ele se dedica à venda do chamado seguro de ramos elementares, aqueles que envolvem incêndios, automóveis, transportes e acidentes pessoais, já que, como veterano na atividade, não mais lhe interessa os seguros de vida, estes sempre “muito chatos e trabalhosos”, que exigem o convencimento do cliente com tal e qual vantagem, este ou aquele benefício e, numa idade dessa, já não valeria mais a pena ficar gastando o latim ou qualquer outro idioma para depois não ter o sucesso de mais uma apólice assinada, porque as estatísticas estão aí para mostrar que a maioria recusa implacavelmente, não importa se o vendedor cheira a leite ou se já tem os vincos da sabedoria estampados na cara. Por isso que o decano desse segmento de fregueses precavidos resolveu apostar nos bens duráveis como produtos que merecem cuidado especial dos donos e assim tem clientes que fazem o carminho inverso ao natural e o procuram para renovar ou fazer pedidos de orçamento. Há mais de 60 anos, dedica-se a esse ramo da corretagem e, com 101 anos de idade, que vão se transformar em 102 em agosto, ele é o mais antigo profissional da área no Brasil, provavelmente um dos mais antigos profissionais de qualquer área em atividade na Bahia. Virou aposentado, mas não vagabundo como dizia um ex-presidente da República, em 1968, quando migrou para outra empresa e tem recebido homenagens pela carreira de maratonista laborativo, enquanto a maioria das pessoas planeja uma trajetória profissional de velocista, finalizada com a linha de chegada de uma aposentadoria aos 50 e poucos, a corrida oposta ao do obstinado Edmundo e seu fôlego de quem está disputando um decatlo dos corretores. Na comemoração dos 100 anos, em 2005, ele recebeu um coquetel de presente da empresa, a multinacional AGF, que alugou um salão do luxuoso hotel Blue Tree Towers para reverenciar a dedicação sem prazo de validade do funcionário que, para efeitos de reconhecimento sem o pejorativo de terceira idade, foi chamado de mais experiente pelo próprio presidente nacional da companhia, que levou seu exemplo para além fronteiras. Quando precisa, o centenário trabalhador sobe num ônibus pela porta dianteira, direito adquirido pela idade, e desembarca na rua mais próxima da filial da firma em Salvador, no bairro da Pituba, menos por obrigação de cartão de ponto e mais para tarefas que exijam sua presença ou, por que não admitir, rever colegas, ouvir histórias recentes e  render um novo capítulo para seu dia.

Amor de insistência

Estas visitas no escritório só não são mais freqüentes por causa da influência da companheira de Edmundo, dona Edite Chaves de Jesus, hoje com 56 anos, 18 destes convivendo com o personagem secular desta narrativa, que acha por bem ele levar um cotidiano mais doméstico sem se expor aos males e desventuras desta urbanidade que está aí cheia de riscos e insegurança. Ela faz questão de dizer que não proíbe o marido de sair de casa e nem regula sua programação diária, mas garante ficar muito mais à vontade quando está por perto ou sai acompanhado de alguém, na maioria das vezes, ela mesma a pajear as andanças, porque seu Edmundo gosta mesmo é de estar em contato com o mundo, de preferência, caminhando. Só que esse anseio de estar na efervescência da vida mundana é cada dia mais frustrado pela violência que o colocou como vítima de quatro assaltos nos anos mais recentes, situações em que os bandidos sempre levam alguns trocados e deixam um saldo de susto, arranhões, quedas e ameaças, e é isso que preocupa dona Edite e que frustra seu Edmundo, impossibilitado de um passeio até o Comércio, reduto principal das velhas amizades (no melhor sentido da palavra velhas).  Com sua calça de sarja ajustada um pouco mais alto do que a cintura, a aparência tranqüila e simpática de um senhor que passaria por septuagenário ativo em qualquer retiro de idosos, a dicção sem falhas de magistrado da vida, o diálogo sem presunção que combina com aqueles que colheram sabedoria, os cabelos ralos da maturidade, ele troca as experiências com a mulher que tem quase a metade da idade e foi conquistada na melhor fórmula de romance do velho Edmundo: “a insistência sempre vence a resistência”. Ela, uma funcionária da loja de calçados onde o patrão contratava o seguro do corretor, este cada dia mais presente e afetuoso, cheio de frases de galanteador e convites para jantar, que permaneceram estéreis durante pelo menos oito anos, uma das mais longas histórias de sedução que se tem notícia fora da literatura clássica. No início, o relacionamento com uma mulher tão mais jovem foi contestado pelos parentes dele (a filha mais velha de Edmundo nasceu mais de 15 anos antes do que a madrasta), só que agora dona Edite já está de tal forma agregada à família que é capaz de desdobrar toda a árvore genealógica do patriarca: são seis filhos vivos, 15 netos, 24 bisnetos e dois tataranetos. A primeira esposa tinha 16 anos e ele, 26, quando casaram para um matrimônio de mais de 40 anos, interrompido pela morte dela, vítima de um atropelamento fatal. Bem antes do embarque definitivo no trem da saudade, ela já tinha passado por um drama médico, em que fora desenganada pelos especialistas aferrados a um diagnóstico de mais alguns meses de vida em função de uma cirrose hepática, e o marido nunca admitira a possibilidade de perda sem esgotar todos os esforços, porque é justamente desse tipo de insistência, muitas vezes considerada desmedida, que se nutre o verdadeiro amor. E Edmundo, antes um ortodoxo em termos de religião, aceitou a idéia de procurar uma senhora analfabeta que diziam incorporar o espírito de um médico muito famoso em vida, e a dita senhora mandou logo que cortassem o antibiótico da mulher porque estava fazendo mal, sem ao menos conhecer a paciente ou o caso. No dia seguinte, o médico desconfiou que o medicamento recém-lançado estreptomicina estava desencadeando um processo alérgico, pediu a suspensão e, para encurtar a conversa, o melhor é dizer que a esposa ficou totalmente curada depois de umas sessões com a tal entidade que usava o corpo da analfabeta para cometer suas cientificamente inexplicáveis proezas. A partir daí, Edmundo trilhou o caminho do espiritualismo, procurando a descoberta do oculto, a crença na imortalidade da alma e na reencarnação como forma de purificação e melhoria do espírito, uma vereda rumo ao inacessível que levou até a maçonaria, a sociedade guardiã de segredos por excelência. Dona Edite, declaradamente “católica apostólica romana”, sempre que tem uma oportunidade questiona os mistérios da maçonaria, mas não ouve respostas do marido, um atento observador de memória prodigiosa, capaz de recordar os nomes de navios bombardeados na Bahia durante a II Guerra Mundial, os locais alvejados por tiroteios em Salvador durante a Revolução de 1930, as baixas no bombardeio à capital em 1912. Em seu século de acúmulo de conhecimento, aprendeu muita coisa, menos a dirigir, porque sentiu uma tremedeira na primeira vez ao volante, estréia tardia como motorista, depois dos 70 anos, ele que sempre utilizou meios de transporte tradicionais, como o bonde em que pongava na mocidade para ir lá e acolá. A memória intacta e a lucidez admirável são contrates para a surdez que uma cegueira branca e leitosa do ouvido (como a moléstia visual dos personagens de Ensaio sobre a Cegueira, do romancista português José Saramago), minimamente compensada por um aparelho auditivo que não recupera totalmente as capacidades de ouvir e por isso temos que falar num volume um pouco mais alto que o tradicional para o diálogo acontecer em seu fluxo de perguntas, respostas e comentários que não são nem um nem outro. O certo é que Edmundo assinou mesmo a apólice da longevidade, mas desconversa sobre os segredos da bem aventurança, diz que “a fórmula é ser feliz”, tomar uma cervejinha de vez em quando, e integrar partidas intermináveis de baralho durante mais de 10 horas ininterruptas no fim de semana, enquanto dona Edite completa que um eletricista que trabalha no apartamento já pediu para ser convidado no aniversário de 125 anos. Todo mundo quer participar das próximas páginas de existência do corretor de vitalidade, parágrafos escritos em dignidade de uma longa vida, parágrafos de longa sabedoria de uma vida jovem.

O fantasma vivo de Ondina

Novembro 7, 2009

Samuca, o indigente sem identidade, sem passado e sem futuro, está há tanto tempo vagando que ninguém mais o enxerga

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Samuca é um senhor negro de aparência cansada e um olhar orbitando entre o nada e o lugar nenhum, que jamais foi visto sem um paletó puído e encardido, sempre transitando pelas vielas de Ondina, no máximo andando até a Barra. Samuca não mais se comunica pelos métodos tradicionais, parece ter desistido de falar e a maioria das pessoas desistiu também de perguntar a ele. Não se sabe sobre a origem e o passado dele. Sem nome nem sobrenome, Samuca é um fantasma a quem se referem com certo carinho e um pouco de compaixão, do mesmo jeito que Gasparzinho (também sem nome e sobrenome, só com um apelido) também é um etéreo camarada.

Samuca perambula envergando seu paletó esfarrapado que algum dia foi bege. Sempre desconfiado, não aceita a aproximação despretensiosa de ninguém, mas também não costuma reclamar com palavras. Simplesmente, muda de local, sai do ponto demonstrando uma insatisfação por ser seguido. Está quase sempre fumando um cigarro que alguém lhe deu no outro turno, ou que ele mesmo comprou com algumas moedas dadas em gratidão.

De manhã bem cedo, ele bate ponto numa delicatessen da Avenida Ademar de Barros para tomar café. À noite, ele volta e os funcionários já sabem que ele quer um pão e uma xícara de café quente. Muitas vezes, alguém oferece um sanduíche e ele recusa. Outras vezes, apenas aquiesce com a cabeça e emite um grunhido para dizer que aceita o favor.

O leitor mais atento vai sentir falta das aspas com declarações de Samuca, tudo reflexo da mudez irredutível de nosso personagem. Falar é até desnecessário com tanto recado que ele consegue dar em seu idioma peculiar de escapista. Em mais de 40 anos a girar mesma região, Samuca é um espectro de boatos. Uns juram que já foi muito rico e se revoltou com a vida burguesa, outros garantem que ele era um dedicado estudante de medicina que perdeu o equilíbrio de tanto decorar anatomia e diagnósticos de doenças. Samuca não dá respostas, apenas continua andando.

 

Cão sem dono

Errante mas disciplinado, como se fosse um doberman sem dono, ele anda muito e sempre. E quando não está caminhando, fica agachado, recolhido em uma introspecção muda. São inúmeras as lendas urbanas que rodeiam essa entidade. “Cada um conta sua própria história”, confirma Andréia Araújo dos Santos, caixa há um ano e três meses em um dos estabelecimentos em que ele dá o ar da graça. Alguns afirmam existir parentes seus em São Lázaro, outros dizem ter visto familiares dele na Boca do Rio. Um vendedor de caldo de cana divulga que ele viu a mãe sendo estuprada e ficou traumatizado. Já Álvaro Barbosa, o dono de um carrinho de cachorro-quente, garante que ele era um secundarista aplicado que chegava da escola por volta do meio-dia, quando testemunhou o assassinato dos pais por um carro em alta velocidade. Daquele dia, virou um nômade na paisagem.

É o esmolé que tem o orgulho para rejeitar caridade. “Se ele já estiver com uma carteira de cigarro e alguém oferecer mais um, nega na mesma hora”, jura Álvaro Barbosa, 54 anos. Só que às vezes tem uma necessidade orgânica que o impede de manter a fleuma. “Se ele estiver sem nada, aceita até a guimba do cigarro”, completa Carmelito Souza, 50 anos, dono da banca de revistas onde o surrado Samuca às vezes chega com duas ou três moedas para trocar por algo para fumar.

A vida de Samuca é também um passeio por Ondina, bairro residencial com o fluxo contínuo de estudantes. Acompanhar seus descaminhos é uma descoberta da geografia do bairro. É invadir a rua Baependi e depois trilhar pela orla dos hotéis de luxo, passando por restaurantes e agências bancárias. É ficar tranqüilo sob uma arvore na rua Macapá, ouvindo os pneus de carros chacoalhando no calçamento de pedra. A avenida Ademar de Barros é seu lar e uma amendoeira é seu teto. Em outros momentos, prefere dormir na Sabino Silva, não se sabe o que o faz mudar de um dia para o outro.

É capaz de ficar uma hora fitando o movimento de veículos no rush do fim de tarde. Samuca caminha vagaroso, a passos de quem não tem destino. O paletó de ombreiras largas dá ao corpo a geometria de um quadrilátero. Recorta uma caixa de papelão e recolhe um papel laminado do prato de marmita sujo. Com aquele, vai fazer um colchão fino e inútil. Com este, produz uma espécie de relógio sem ponteiros mas brilhante, ou uma coroa. Por essas e outras, já foi eleito por alguns fãs como pioneiro na reciclagem.

 

Fãs virtuais

No site de relacionamentos Orkut, a comunidade Todo Mundo Conhece Samuca contava com 960 usuários na última semana de abril, todos fãs do “mendigo mais chique do Brasil”, alguns com oito anos de idade, outros com mais de 50. Os tópicos são diversos como A idade de Samuca, Onde Samuca passa o carnaval, Quase Atropelei Samuca, Samuca Campeão Corredor. Só que o mais comentado, com quase 80 opiniões, é O Passado de Samuca.

Cada um consegue uma interpretação mais incrementada para essa incógnita que se revela tão incômoda como o assassinato de John Kennedy. O estudante Eduardo Pontes, 19 anos, criador da comunidade: “Eu sei que cada prédio tem sua teoria do passado de Samuca que é passada para frente pelos moradores mais antigos, ou pelos porteiros e zeladores. A mais famosa do meu prédio conta que Samuca era um garoto rico que deu uma festa enquanto os seus pais viajavam. Após fazer o uso de drogas nessa festa, ficou totalmente sem noção e acabou indo para as ruas, mais tarde ficando maluco.”

Lá na frente, outro diz que ele era excelente professor de matemática que ficou maluco depois de corrigir tanta prova. Um mais ufanista garante que ele foi combatente na Guerra do Vietnam e que não agüentou ver tanta carnificina.

O universitário Marcelo Kubli Vieira, de 21 anos: “O motorista da minha vó disse que conhece Samuca faz anos. A história que ele me contou é que Samuca trabalhava como cobrador de ônibus e era um homem direito e trabalhador. Mas aí ele teve um caso com a mulher do chefe dele, que resolveu espancar o pobre Samuca até ele ficar doidão do jeito que ele é.” Cada qual faz a aposta mais absurda para o evento que transformou para sempre a vida deste anônimo em um passado de sombras e um presente de migalhas.

 

Funcionário padrão

Seu Ângelo, um espanhol que era o antigo dono da delicatessen, uma das pessoas mais próximas a Samuca, certa vez contou para uma funcionária que ele era caixa de uma padaria no Chame-Chame. O estabelecimento faliu e “de uma hora para a outra, ele fundiu a cabeça”. Já dona Maria José, que está pagando o pacote de pães cacetinhos, discorda. Ela ouviu dizer que o problema dele foi de uma paixão fulminante por uma antiga moradora da região. Como não foi correspondido, resolveu largar os parâmetros de vida comum para algo sem juízo e sem razão.

O porteiro Manuel Borges dos Santos trabalha há 18 anos no mesmo local, tempo suficiente para ter a convicção de que estamos falando de gênio incompreendido. Argumenta que ele é bom de cálculo e tem a noção exata dos dias da semana, dos feriados, principalmente. “Se você perguntar o que significa o dia de hoje (21 de abril), ele te dá uma aula sobre Tiradentes”, garante Manuel, na certa esquecendo que Samuca dificilmente articula um diálogo. A empregada doméstica Nuzinéia Santos há 16 anos serve um café para Samuca, a pedido da patroa, que mora no condomínio Costa Cavalcanti. Dele, nada ouve, mas também não diz nada.

Um tempo atrás, segundo os poucos que ainda se interessam pelo enigma que é a vida de Samuca, ele foi atropelado. Ficou quase dois anos em tratamento no Hospital Juliano Moreira. Quando se recuperou, indicou como endereço para o motorista da kombi a rua onde sempre fica, hóspede do relento. O carro parou ali, em frente da padaria, Samuca saltou sem dizer adeus e lá ficou. A versão para essa história muda de acordo com o narrador. Para uns, não foi o Juliano Moreira, mas sim o HGE. Para outros, não foram dois anos, mas alguns meses. Por fim, tem aqueles que dizem que Samuca nunca foi atropelado, apenas é recolhido de tempos em tempos para uma assepsia geral. “Nessas horas, ele volta novinho, com aparência boa e cheiroso”, jura Fernando Silva, gerente da delicatessen onde ele é assíduo beneficiário.

A enfermeira Moni Melo deu o depoimento mais lúcido da comunidade do orkut. Ela garante que conhece Samuca desde 1970, quando começou a estudar no Instituto Social da Bahia, ainda criança, e via sempre aquele senhor de cara amarrada, mas vestido numa elegância de dar gosto. Quando ela começou a fazer estágio no antigo Hospital Geral, no Canela, terminou atendendo aquele que sempre foi tema de suas especulações juvenis. “Ele sofre de esquizofrenia, doença que afeta as funções cerebrais e desconecta o paciente da realidade. Ele ia sempre para o HGE por conta de bronquite, piorada pelo cigarro. Nunca deu trabalho para as equipes medicas ou de enfermagem quando ficava internado. E como sempre, de repente, ele sumia…”, narra.

Sem passado e sem futuro, seu perímetro é um território onde os estudantes passam fazendo chacota. Várias gerações se acostumaram a fazer dele o alvo preferencial de sua falta de limites: Samuuuuuca, gritam. Enfezado, ele reage com algum palavrão, num dos poucos episódios em que é capaz de falar. Um balconista confirma que ele nada diz, nada esclarece. A esse incomum personagem juntou-se um estudante universitário que, semanalmente, aparece com uma máquina digital para, também solitário, registrar fotografias do indigente, sem que ele perceba.

Samuca está ali na frente do mercadinho, sentado e roto, como se fosse um vira-latas sempre acuado. Dona Fifi passa por ele e cumprimenta: “Samuca, meu amigo, boa noite”. Ele não responde, parece não ligar. Continua a mexer em um pedaço de papel velho, como se sua vida dependesse exclusivamente do fato ficar despercebido aos olhos do mundo.

Barraqueira desbocada

Novembro 7, 2009

Jajá, imortalizada em música de Durval Lélis, leva a vida na gozação, mas achou a maior sacanagem o embargo de sua barraca

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

É no epicentro do furacão de projetos inacabados, trapalhadas administrativas e terraarrasada que se tornou boa parte da orla de Salvador que dona Jacira Nazaré Gomes, 55 anos, símbolo feminino dos barraqueiros consegue arrancar algum humor com o sorriso mais desbocado, espontâneo e generoso de todo o litoral baiano. Para explicar a receita mais cobiçada de seu estabelecimento, na praia de Jaguaribe, o polvo cipoeiro, Jajá não quer nem saber para quem está falando. “Eu digo a fórmula para muita gente, só que ninguém consegue fazer direito, porque tem um ingrediente que é minha calçola”, revela, antes de abrir um sorriso largo. “O caldo tem que ser coado em minha calçola”, goza a cozinheira que gosta tudo nos pratos limpos.

Esta é a Jajá, aos 55 anos de idade, 42 deles dedicados à praia e à manutenção da imagem que um dia encantou o incipiente cantor Durval Lélis. Depois de colocar a barraqueira em um verso de música de axé, ela se tornou celebridade à beira-mar e garante que é visitada até por turistas. “Sou conhecida no Brasil inteiro. Agora mesmo, veio um pessoal de São Paulo para conhecer a madrinha de Durval”, vangloria-se.

Jajá só precisa de dois ou três minutos de intimidade no papo para fazer uma das coisas que mais lhe anima: falar putaria. Mas não com aquele jeito forçado de querer ser polêmica que notabilizou Dercy Gonçalves. Ela engrena um palavrão no outro com tanta naturalidade, emendando uma porra como vírgula, um cacete como objeto direto, uma foda concordando com cruz-credo, que tudo parece até conversa de criança. Talvez por isso, uma das netinhas, que ainda não completou três anos, acompanhe tudo com os olhos inocentes de uma pequena sereia da orla de Salvador.

Negócio de família, a barraca foi iniciada em Placaford, pelo patriarca Júlio Liberato Gomes, o cabo Júlio. Há quatro décadas, quando o mestre da família montou a venda, ela já trabalhava, ainda criança e já na labuta sem direito a sombra. Tanto tempo depois, garante que não lembra a última vez em que usou protetor solar no rosto e nem está ligando para os possíveis riscos da falta de cuidados. “Se não fiquei doente quando era jovem, não vai ser agora. O couro da gente guenta, quem não guenta é pessoa branca”.

 

Point musical

A barraca ficou mais musical quando uma turma de jovens dublês de surfistas e roqueiros em migração de ritmo resolveu bater ponto por lá. Eram Durval Lélis, Tuca Fernandes, Mano Góes, que pediam a “tia” Jajá para guardar as roupas e mochilas enquanto eles pegavam onda até o fim do dia. Todos os clientes já tinham ido embora, mas a barraqueira aguardava até a saída da praia dos “meninos”. Para recebê-los, sempre tinha um caldo de povo, uma fogueira improvisada nos fundos da barraca e o epílogo geralmente era um luau com músicas que terminariam consagradas nos carnavais seguintes. “As raízes do Asa se encontram ali”, disse, certa vez, Durval Lélis.

No primeiro disco do Asa de Águia, em 1988, ainda no formato de LP, um agradecimento na contracapa monocromática à “madrinha Jajá do Sesc”, a referência ao trecho da orla onde está sua barraca. A letra de Na Bahia Aiá cita literalmente o abrigo onde se deu a gênese da banda: “É sempre bom lembrar/ Oxum, Iemanjá/ Comer um polvo cipoeiro/ Na barraca de Jajá”. A isso, segue-se um convite para que a homenageada cantarole o trecho da música. “Eu, cantar? Só se você tocar… uma punheta”, gargalha a desbocada barraqueira.

 

O pior pesadelo

A irreverência é trocada por lamentação quando Jajá comenta o embargo na orla que transformou em angústia a vida dos comerciantes pelo menos nos últimos oito meses. “Esse ano que passou foi o pior de minha vida”, desabafa. “E olha que no ano anterior eu tinha perdido minha mãe, o que já foi um baque grande. Mas este ano foi pior ainda”.

O ramo família é o que sustenta a barraca, que já teve 25 funcionários e hoje funciona apenas com cinco garçons, convocados nos fins de semana, e mais os parentes que trabalham no regime de mutirão. A filha Noquinha é a espécie de gerente, é quem tem toda a contabilidade do ano de prejuízo provocado com o impasse na orla. “A gente chegava a vender entre 60 e 80 caixas de cerveja por semana”, recorda. “Hoje, essa quantidade não passa de 15”, choraminga.

A pendenga que se arrasta entre Patrimônio da União, Ibama, Centro de Recursos Ambientais e Prefeitura de Salvador para se saber o que faz com os elefantes brancos erguidos ao longo da costa é acompanhada de perto por Noquinha. Ela acha que como algumas barracas estão praticamente concluídas vai ser encontrada uma brecha legal para a finalização do imóvel. “Depois de três ou quatro anos, eles deve fazer um novo projeto”, aposta. A entrega da barraca de Jajá era prevista para 20 de setembro, mas no dia 4 tudo foi embargado. “Virou o favelódromo”, resume a própria.

No dia 4 de dezembro, ocuparam a obra inacabada, baseado num pedido do advogado João Maia, que resolveu defender os comerciantes e argumentou que estava embargada a construção, mas não o trabalho.

 

Clientela fiel

Além da própria crise que afetou os permissionários da orla em geral, Jajá conviveu com outro tipo de concorrência motivado pelo perfil do público que sempre atraiu. Os jovens, alternativos da classe média, terminaram migrando para as praias mais afastadas do centro, como Flamengo, Stella Maris e Ipitanga. Ela só não perdeu totalmente a clientela por causa da fidelidade. O empresário Rafael “Cabelinho” foi apresentado ao reduto dos praieiros pelo amigo Mano Góes. Nos fins de semana, não dispensa a ida até Stela Maris, mas se vai na praia em algum dia útil, prefere a cerveja gelada de Jajá, madrinha de toda uma geração de banhistas foliões. “Aqui terminou se tornando um ponto de encontro da galera”, resume.

É o pessoal que não dispensa as roskas, o polvo cipoeiro e o tempero de moquecas e caldos, mas também ficou cativo das gozações da irreverente vendedora. “O Tuca (Fernandes, vocalista do Jammil) cada hora aparece aqui com mulher que não é mais gata, é onça. Nunca vi um rapaz trabalhar daquele jeito”, entrega ela, maliciosamente. “Outro dia, veio com uma que parecia menininha e me disse com cara de pau que era a filhinha dele. Eu disse a ela que não queria receber o que ela recebe de papai, não”, debocha, para as gargalhadas de metade dos clientes que acompanham suas histórias como se fosse um monólogo de comédia.

Mais do que clientes, os fregueses se tornam cúmplices, como afilhados queridos. Um grupo de três jovens com cara de outros carnavais vai se despedindo com o aviso de que estão indo para um show em Brasília. Ela não perde a chance de recomendar com jeito de mãezona da folia: “beijem muito lá”.

Para quem acha que Durval Lélis não dá o ar da graça desde que ficou famoso, ela desmente logo. “Ele veio aqui tem pouco tempo, deixa eu ver”, responde, com jeito de quem está calculando o tempo. “Tem umas quatro semanas. Trouxe minha neta Luma pra me ver”, conta Jajá, que já se considera da família, como uma inusitada mãe emprestada. A família dela, de sangue, também reúne muitos agregados, além das três filhas carnais. Na casa, em Itapuã, Jajá toma conta de 16 pessoas, a maioria crianças que viviam a esmo na rua. O coração é de mãe e continua o mesmo, sempre cabe mais um filho querido. Já a boca é de malandro e sempre está pronta para receber o palavrão do momento. Tudo na maior decência.

Pequena filosofia

Novembro 7, 2009

Jean Nanico, 30 anos, 1,68m de altura, enxerga poesia em letras de pagode e vê o mundo em hipérboles

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Uma frase pode ser capaz de eternizar um personagem histórico, colocar seu autor na posteridade que despreza qualquer jazigo do esquecimento. O filósofo grego Plutarco de Queroneia, morto por volta do ano 120 d.C, até hoje pode ser recordado por dizer uma vez “é preciso viver, não apenas existir”. Já o escritor russo Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904), mestre do conto moderno, legou para a posteridade: “O homem é o que ele acredita”. Uma frase do príncipe Hamlet, protagonista da peça de mesmo nome, deu ao dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) a notoriedade mundial: “Ser ou não ser, eis a questão”. O inventor e empresário norte-americano Thomas Alva Edison (1847-1931) deixou a citação de que o sucesso depende muito mais de esforço do que de sorte: “Minhas invenções são fruto de 1% de inspiração e 99% de transpiração”.

São exemplos de como a imortalidade pode bafejar um nome apenas pela composição adequada de um sujeito, um predicado e um objeto direto. O promotor de eventos baiano Jean Joubert, carinhosamente chamado de Jean Nanico, já deu sua contribuição para essa antologia mundial de pensamentos imortais. Em dado momento de reflexão, ele teve o alumbramento típico dos gênios, aquele instante definitivo de iluminação que pode marcar para sempre uma vida. Ali surgiu uma frase que virou marca registrada: “é de camisa… e colorida”. A expressão que já estampou dezenas de outdoors por Salvador virou selo de qualidade em festas de grande apelo popular, com até 20 atrações de pagode, arrocha e axé music se sucedendo no mesmo palco para delírio de milhares de espectadores.

Jean Nanico, o pai da matéria, é até modesto a respeito de sua criação. Ele admite que apenas aproveitou um aviso circulante entre os freqüentadores das festas e adaptou como bordão. Também não era de esperar que tivesse passado semanas para conceber o que se tornou pérola do marketing do entretenimento para o povão. “Antes, festa de camisa era sinônimo de evento para a elite. Aí, nós começamos a colocar camisas nas festas da Marina da Penha (shows de pagode na Cidade Baixa, aos domingos), e o bicho pegou”, resume.

Aquarela de camisas

Em seguida, começaram a diversificar as tonalidades das blusas. “Percebemos que muita gente coleciona as camisas de festa, aí demos a opção de ter de várias cores”, explica. Nesse segmento de convites em forma de roupa, Jean Nanico se orgulha de ter promovido “a maior festa de camisa do mundo”, se é que algum livro de recordes se interessa por um registro desse gênero. Mais de 60 mil pessoas, no Parque de Exposições, vestindo 15 cores diferentes, formaram uma platéia de alegrar qualquer empresário do ramo de silk-screen. “As pessoas guardam como recordação para mostrar que participaram daquele momento”, comenta o produtor, como se estivesse falando da emoção de quem conserva um pedaço da grama do festival de Woodstock.

Aos 30 anos, Jean Joubert sente-se como se estivesse numa epopéia de valorização da cultura das massas. Ele está para o moderno pagode baiano, assim como Rubens Edwald Filho está para o cinema. Só que mais do que um especialista, ele é um entusiasta, um analista de metáforas, enxerga arte onde a maioria das pessoas só vê futilidades.

A música Problemática, da banda Parangolé, que foi cogitada como a mais tocada do carnaval 2007, motiva no rapaz elogios comparáveis aos de Caetano Veloso para João Gilberto. Ele ficou particularmente impressionado com os seguintes versos: “Olho de Thundera/ Está ligada em tudo/ Vê maldade nas coisas do mundo/ Essa menina não é brincadeira”. “Se Carlinhos Brown tivesse escrito isso, diriam que é pura poesia”, derrama-se o Nanico, que diz medir 1,68m e não ter problemas com “o apelido carinhoso dado por amigos”.

“Bombando”

Além de filósofo das massas, Jean Nanico também virou repórter de televisão. Participa de um programa independente chamado Se Liga no Pida, dedicado a coberturas de festas, amenidades e fofocas dos bastidores artísticos. Ele se apresenta sempre entre músicos e foliões com um jeitão despojado de filho do dono da Microsoft, geralmente usando um boné de garotão para disfarçar o fato de já ser um balzaquiano. Sua linguagem reúne um idioma típico da burguesia adolescente baiana com expressões às vezes ininteligíveis como “bombando”, “estourado”, “astral”, “figura” e “só filé”. Como não poderia deixar de criar mais frases de efeito, usa o bordão oiiii, geeeeente!

A vida agitada de celebridade do universo pagodeiro, na visão de Jean, tem seus problemas. “Eu terminei perdendo um pouco a privacidade, mas nada que chegue mesmo a incomodar”, confessa, ajeitando displicentemente o boné no espaço do spa do camarote de Daniela Mercury, local onde disputou atenção com celebridades como os cantores Daniel e Sidney Magal, a jogadora de vôlei Virna, os atores Alexandre Barillari e Camila Morgado.

Morador do Imbuí, bairro que considera perfeito pela localização e pela quantidade de serviços oferecidos, Jean Joulbert tentou a faculdade de administração e marketing, mas desistiu antes de receber o diploma. Mesmo assim, não se conforma com “a falta de raça” do irmão Luquinhas, que certamente se tornaria um dos melhores jogadores de futebol do Brasil, em sua análise cheia de hipérboles e extravagâncias retóricas. O jovem chegou a passar alguns meses em teste no Vasco da Gama, mas desistiu de tudo “por causa de saudades e de máfia”, segundo o irmão.

Luquinhas também tentou ingressar no Vitória, só que alegou não ter ficado no clube por falta de um pistolão. “Mas também Jean Nanico não era o que é hoje”, garante o diminuto candidato a personalidade, já falando em terceira pessoa, ao melhor estilo de Edson Arantes do Nascimento, quando comenta a carreira de Pelé. Seguindo a cartilha das celebridades em ascensão, Jean muda de assunto na hora de falar da vida pessoal. Prefere não comentar intimidades, ou o namoro, provavelmente para não decepcionar as fãs do seu trabalho.

De qualquer forma, garante que está muito satisfeito por ser o visionário das blusas de várias cores. “Fico feliz de chegar aonde eu cheguei. Muito feliz em ser reconhecido”, agradece, levando a sério essa história de ser ídolo das massas. Jean, o nanico, está mesmo se lixando para aquele pensador anônimo que deixou uma frase para a posteridade no fundo do próprio caminhão: “quando homem valer dinheiro, baixinho serve de troco”.

Matriarca da abnegação

Novembro 7, 2009

Florenice Gomes Machado, a Vó Flor, de 76 anos, faz da dedicação a crianças órfãs e desamparadas uma missão de vida

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Oficialmente, Florenice Gomes Machado, a Vó Flor de filhos antes desamparados e netos muitos abandonados, tem 76 anos, mas às vezes conta que a idade dela é resultado dasubtração dos anos 2007 por 1980. Naquele ano, ela sofreu parada cardíaca, o corpo parou em UTI e a mente viajou por um recanto inesquecível. “Tive um sonho em que eu passava por um lugar muito bonito, vinha uma moça com chapéu branco e dizia que eu não poderia ir até lá. Eu falei que iria, mas voltava. Tinham luzes, flores, árvores que pareciam de prata. Quando a mulher disse que eu não voltaria mais, eu pulei uma gradezinha e estava de volta ao hospital”, recorda.

No leito da UTI, ela conta ter ficado três dias “cega, surda e muda”, experiência que o médico, no momento da alta, disse não ter visto ninguém para sair cantando vitória. “Aquele lugar que eu conheci, até hoje me dá forças para continuar nessa luta”. O campo da batalha de Vó Flor tem endereço certo: é um sobrado com quase oito décadas de construção no Largo da Madragoa, na Ribeira, o lar de crianças que só descobriram ali o que é ter uma família.

Atualmente, são três dezenas de crianças que encontraram na Creche Orfanato Vó Flor um colchão, um prato de comida em cada refeição, um incentivo para continuar estudando e, principalmente, o afago que alimenta sonhos de infância. Normalmente, Vó Flor utiliza como data para o início de sua saga o ano de 1978, quando abriu as portas de um imóvel em São Joaquim para os excluídos mirins. Só que ela recorda uma vocação de pirralha para esse tipo de acolhimento.

Lembra de quando tinha 15 anos e viu um menino vestido com os frangalhos da indigência, lembra da vontade de dar um lar para ele que se tornou irmão. Em frente ao Colégio Duque de Caxias, na Liberdade, bairro onde morava, descobriu esse moleque abandonado. Carregou o menino até a residência mantida pelo pai, que teve quatro filhos biológicos. O menino Wilson ficou com a família até os 18 anos, tornou-se mecânico e hoje ainda chama Florenice de madrinha.

Ladrãozinho de feira

Há 28 anos, começou em uma casa perto da feira de São Joaquim, usando o próprio dinheiro para manter as despesas. Tudo começou com um menino, “um ladrãozinho de feira”, na definição dela. Em 1997, as autoridades de proteção à infância argumentaram que ela precisaria legalizar sua forma de assistência transformando a casa em instituição.

Em 2002, passaram a ocupar o imóvel no Largo da Madragoa, a um custo mensal de R$1.234, conforme os recibos de aluguel. São 56 assistidos que dependem das doações. Destes, 30 moram no local, dormem nos beliches, comem na mesa de madeira que também serve para as aulas de reforço escolar.

Filhos de sangue, Florenice teve quatro, o mais velho é dono de gráfica e às vezes ajuda a mãe com as contas, quando ela não tem mais a quem recorrer. Casou aos 21 anos, divorciou logo depois de ter quatro filhos com o marido e descobrir suas aventuras de policial mulherengo e incorrigível. “Eu tinha a casa, trabalhava como auxiliar de enfermagem e ele se aproveitava de tudo”, recorda Flor, um pouco magoada. Depois de 35 anos de divórcio, o ex-marido ainda tentou uma reconciliação. Sem uma perna, amputada por causa de um tumor maligno, morando em Mussurunga, ele reconheceu que tinha desperdiçado uma grande mulher.

Quando ainda não era Flor e muito menos Vó, Florenice criou os filhos sozinha, num estágio para as provações futuras. Além de trabalhar na Fundação Hospitalar Octávio Mangabeira, também conseguia um orçamento extra com o salão de beleza Pena Branca, no Cruzeiro de São Francisco e depois o Restaurante Flor de São Joaquim, os dois empreendimentos paralelos de sua vida profissional.

Resgate das ruas

Vó Flor se enche de orgulho quando procura informações do paradeiro daquelas crianças sem rumo de São Joaquim e ouve a resposta: “os únicos que não deram para ladrão ou maconheiro foram os que a senhora pegou para criar”. E para conseguir esse sucesso, ela aplica a didática do choque. “Toda vez que vejo um bandido sendo preso, pego um menino pelo braço e mostro o destino certo para todo ladrão”, ensina. “Na verdade, o que estou fazendo é diminuir a quantidade de marginais nas ruas, no futuro”.

Quando passava por São Joaquim à noite com uma fila de crianças, o povo comentava: lá vem Vó Flor com o exército de Cristo. E se as crianças cruzassem por um pelotão da polícia, logo davam boa noite. “Ta vendo?”, avisava Vó Flor aos policiais, “estou levando para não dar trabalho a vocês”.

As crianças de ontem ajudam em todo o trabalho, fazendo girar a ciranda do desprendimento. Arlan dos Santos Mota, 17 anos, chegou na creche com quatro anos de idade, hoje nem mora lá mas continua ajudando como voluntário, limpando e cortando o cabelo dos meninos. “Não tenho ninguém, só a senhora mesmo”, reconhece Arlan, que chegou desnutrido, com barrigão, sem conseguir nem andar e hoje já pensa nos cursos técnicos de mecânica e eletrônica.

O orgulho da Vó Flor atende por Michel Cardoso, que aos 22 anos se prepara para o vestibular, ainda indeciso entre Direito, Educação Física e Psicologia. Chegou na creche quando ainda era em São Joaquim e ele tinha sete anos, sem futuro. No período fora das aulas, ele sempre está por ali “dando uma força para as crianças”. “Estou ajudando e sendo ajudado”, reflete o jovem.

Tudo isso acontece em um ambiente onde inacreditavelmente prevalece a inocência, apesar das cicatrizes do abandono. As criancinhas se aconchegam em quem aparece e tem alguma fisionomia compatível com o que elas podem chamar de tio. Nas paredes, os ensinamentos escritos em cartolinas coloridas: Jamais ouça os que ficam falando mal dos outros e bem de você.

Fome zero

As doações garantem o sustento do projeto de abnegação de Vó Flor. Da quantidade de comida, ela não tem como se queixar. Muitas vezes, recebem mais cestas básicas do que as crianças consumiriam antes de perecerem os alimentos. Ela resolveu repassar o excedente para outras entidades, como a Creche Escola Beneficente Tia Alda, que todo mês conta com essa parceria.

Em 18 anos como evangélica, Flor passou a acreditar que a fé remove montanhas e também movimenta despensas. Por isso, ela não costuma se preocupar com as provisões da creche para o futuro. “Uma vez, uma menina me avisou que era o último frango do congelador e perguntou o que iríamos fazer no outro dia. Eu disse que o amanhã não me interessa”. Na recordação de Vó Flor, logo depois uma ligação telefônica feita por alguém que não quis se identificar perguntava se havia freezer na creche. Com a resposta afirmativa, no outro dia um caminha descarregava 120 quilos de frango na instituição.

Vó Flor vai até a porta para se despedir. Na saída, uma senhora caminhando pela calçada pára diante dela e pergunta se é mesmo a Vó Flor. “Parabéns, é muito bom te conhecer”, diz a aposentada, que continua ali numa conversa sobre dedicação e altruísmo, dons que são o cartão de visitas dos abnegados. E no bucólico fim de tarde da Ribeira, duas idosas rejuvenescem em solidariedade ao próximo.

A mecânica da coisa

Novembro 7, 2009

Ivana Monteiro, 42 anos, trabalha em oficina há quase 30 anos e comanda uma equipe inteiramente masculina

 

Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)

Resolver problemas de um motor de carro é uma das coisas mais familiares para Ivana Cristina Monteiro desde que tinha 12 anos de idade. Passadas três décadas de seu debute em oficinas mecânicas, quando o pai mantinha uma garagem na cidade de Uauá, ela descobriu que muito mais difícil do que trocar as velas de ignição, regular a injeção eletrônica ou trocar a bomba de gasolina é consertar o preconceito que quase sempre está em alta rotação.

Mesmo sendo gerente de uma oficina, responsável por 18 funcionários, todos homens, ela ainda pode ser flagrada pelo radar do machismo. Vestida com um guarda-pó branco e bem limpo, num ambiente predominantemente masculino, Ivana tem histórias da marcha à ré do chauvinismo. Como um cliente que ao chegar à oficina rejeitou passar o carro para ela:

- Não, não, eu quero um mecânico de verdade.

- Mas eu não posso nem ver?

- Não, não, eu quero um mecânico que entenda de carro.

E assim o cliente foi atendido mas, à primeira dúvida, o “mecânico que entendia de carro” foi perguntar a ela como se resolvia aquele problema.

É apenas um exemplo de como ela precisou guiar a própria trajetória para colidir contra o estereótipo de uma profissão. Os clientes de hoje já parecem totalmente adaptados ao jeito feminino de tratar um carro e seu dono. Vivem uma relação de amor com Ivana, a Julieta da oficina. Eduardo Mascarenhas, 33 anos, proprietário de um Renault, ainda tinha um carro Ford, há 10 anos, quando se surpreendeu: “Comecei como cliente, hoje já sou amigo”, garante ele, que mora na Austrália há três anos, mas continua levando os veículos da família quando está de férias em Salvador. “Aqui, a gente vê o serviço que está sendo feito com ela no comando”, atesta o engenheiro Romário Rodrigues de Oliveira, dono de uma Parati e um Gol. Ali, na frente, Ivana já está atenta ao que pode ser mais um defeito:

- Maroto, vamos trocar o sensor de velocidade dele, aponta.

Motor da psicologia

Na prática diária, ela aprendeu que muito do trabalho tem relação com a psicologia, principalmente com as mulheres motoristas. Não são poucas as que chegam falando em metáforas automotivas, sem saber diferenciar um alternador de um amortecedor: “o carro vinha tossindo, tossindo, aí chegou no meio da rua e faleceu”. Nesse ponto, Ivana age muito menos como especialista em câmbio e direção do que como terapeuta, ouvinte sagaz. Fazendo as perguntas certas, na linguagem feminina, muitas vezes ela identifica o problema sem nem precisar abrir o capô.

Ela faz questão de explicar e mostrar para as clientes cada peça. “Se eu apenas digo que o problema é no sensor de rotação, ninguém vai saber o que é. É nessa hora que o mecânico esperto aproveita e mete a faca”, denuncia, criticando a falta de escrúpulos de colegas que superfaturam os serviços prestados. “Mais de 70% dos orçamentos que pego aqui são cheios de enxertos”.

Ivana gerencia a oficina com a desenvoltura e a classe de um chofer de madame. Não perde a chance de participar das brincadeiras, mas também sabe manter a autoridade no nível certo. “Com ela, é jogo duro, não tem como errar”, garante Jaildo de Lima, o Maguila, que faz o papel de testador dos carros antes da entrega aos donos.

Praticamente todas as ligações telefônicas para a oficina têm apenas um objetivo: “Ivana, é para você”, indica o encarregado do almoxarifado José Luís das Mercês Soares. O celular que ela usa toca a cada cinco minutos numa tarde de sexta-feira. São clientes em busca de informações sobre os seus carros. Prestes a dar um orçamento por telefone, ela não inventa rodeios. “Você está sentado?”, prepara, antes de dizer as peças que precisam ser mudadas e o serviço caro que tem que ser feito. “Se ela não estiver aqui, nada é resolvido”, resume Zé Luís.

- Tem que dar uma lixada nesse bloco aí, Itaparica, recomenda.

Engrenagens autodidatas

Tudo isso feito sem escola, sem curso, apenas seguindo os segredos passados pelo pai. É o mesmo que um músico tocar violão de ouvido. O combustível do trabalho é vocação e prazer. “Aprendi rápido, porque gosto do que faço”. Ivana nunca parou para pensar o que faria se não fosse mecânica, “mas certamente seria algo com carro”.

Ivana Cristina Lobo Monteiro, 42 anos, começou trabalhando com o pai numa oficina em Uauá, quando ainda era criança. Irmã de cinco homens e seis mulheres, foi a única que demonstrou vocação para a mecânica. Era capaz de enfrentar a resistência da mãe e dos outros parentes que não queriam permitir o trabalho por achar muito pesado para uma mulher. Nunca deu jeito porque ela sempre voltava e ainda completava sua saga manchada de óleo e graxa trabalhando em uma borracharia próxima.

Quando veio morar em Salvador, há 25 anos, logo arrumou emprego em uma concessionária só que como recepcionista. O sonho era ir lá para os fundos, apertar porcas, puxar cabos, verificar radiadores e baterias, consertar amortecedores. Só que mais do que lidar bem com máquinas, Ivana tem a noção de que as engrenagens humanas precisam ser lubrificadas com gentileza. “Um dos segredos é chamar a todos pelo nome”, ensina.

Numa oficina padrão, mostrada em filmes e novelas, os pôsters de deusas do sexo em posições ginecológicas são como os papéis de parede em um restaurante fast food: estão ali para acelerar o apetite. Mas na garagem de trabalho gerenciada por Ivana esse artifício foi abolido. Ela diz que não foi imposição, mas logo depois revela que também modificou o tradicional hábito de presentear clientes com calendários mais do que provocantes. As folhinhas embrulhadas são entregues por ela, que aproveita para avisar que não tem nada de obsceno. Quando o cliente abre, vê um mapa da Bahia. “Muita gente, todo ano vem me cobrar a folhinha com o calendário”, garante.

Solteirona convicta, Ivana parece ter contraído matrimônio com caixas de marcha, virabrequins, pastilhas de freios, todos os itens do chassi à carroceria. Não admite ver ninguém trabalhando com o freio de mão puxado e, se for preciso, também mete a mão na graxa. E com tanta correria de um lado para o outro é até um alívio para ela ouvir que a entrevista está terminada.

- Esse caso aí é de correia dentada. É melhor até trocar logo, antes do prejuízo ser maior…