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	<title>Co-relatos: crônicas de mão dupla (por Pablo Reis)</title>
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	<description>Reportagens retóricas, biografias históricas, narrativas alegóricas, subversões teóricas. Qualquer coisa para devolver o prazer ao ato de abrir um jornal. E sempre o desafio de fazer do jornalismo uma simples conversa com o desejo de conhecer alguém.</description>
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		<title>Co-relatos: crônicas de mão dupla (por Pablo Reis)</title>
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		<title>Facebook: dois cliques de solidão</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Dec 2011 22:16:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[facebook]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
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		<description><![CDATA[Como o fenômeno de redes sociais pode estar mascarando um incômodo da modernidade e servindo como paliativo para o distanciamento dos seres humanos Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Jesus Cristo ainda demoraria 350 anos para nascer em uma manjedoura quando Aristóteles, o grego, discípulo de Platão, já sugeria que amizades se formam com tempo e intimidade: “não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=194&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>Como o fenômeno de redes sociais pode estar mascarando um incômodo da modernidade e servindo como paliativo para o distanciamento dos seres humanos</em></strong></p>
<p><em>Pablo Reis </em></p>
<p><em>(pabloreis@gmail.com)</em></p>
<p>Jesus Cristo ainda demoraria 350 anos para nascer em uma manjedoura quando Aristóteles, o grego, discípulo de Platão, já sugeria que amizades se formam com tempo e intimidade: “não podem se conhecer sem que se tenham comido juntos a quantidade necessária de sal”. Na época do fenômeno chamado redes sociais, amizades iniciam e se desfazem sob um estalar de dedos, um sutil crepitar de um clique. Se isso pode não valer para a totalidade dos usuários, pelo menos serve como bom ponto de ponderações a respeito de uma maioria que observa em um recurso tecnológico uma oportunidade – talvez a única – de suprir carências, preencher lacunas emocionais, vencer o fosso da reclusão de egos feridos.</p>
<p>Se já é um consenso entre áreas de conhecimentos distintas, como psicologia, antropologia, publicidade, música e ditados populares que solidão não é o oposto de companhia  &#8211; e frases como ´sozinho no meio da multidão´ ganham o status de clichê, afirmar que a conectividade em redes sociais é um sintoma de solidão não aparenta sequer uma afirmação de ousadia intelectual.</p>
<p>O antropólogo americano Robert Weiss dizia que a solidão pode ser justamente dividida em social e emocional. A primeira é o “sentimento de tédio e marginalidade causado por falta de amizades ou de sentimento de pertencer a uma comunidade”. Já a solidão emocional é o “sentimento de vazio e inquietação causados pela falta de relacionamentos profundos”. O primeiro tema parece estar coberto em uma vastidão de códigos de programação e mais de 800 milhões de corações potencialmente unidos pela teia de contatos, mensagens instantâneas e comentários banais. O perigo está justamente na superficialidade, na lacuna de aprofundamento.</p>
<p><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/mw-630-facebook-cry-630w.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-197" title="mw-630-facebook-cry-630w" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/mw-630-facebook-cry-630w.jpg?w=300&#038;h=156" alt="" width="300" height="156" /></a>Solidão interativa é o nome do processo que o sociólogo francês Dominique Wolton dá ao momento atual que os entusiastas gostam de chamar de aldeia global, pós-modernidade. Para ele, a internet dá uma possibilidade maior das pessoas ficarem sozinhas, mascarando o isolamento (muitas vezes, voluntário) com ferramentas que aparentam favorecer a comunicabilidade. Wolton rejeita o conceito de comunicação, nesse caso. Ele acredita que há uma erupção de informações, mas que isso não se configura propriamente o diálogo. Ao invés de comungarem de uma troca de experiências, os seres humanos estão reproduzindo um padrão de troca de solidões.</p>
<p><strong>Angústia do abandono</strong></p>
<p>A internet parece ser o campo com acesso mais rápido e fácil para um território propício a aparente minimização da chaga que é a angústia do sentimento de abandono. Para isso, se torna um outdoor de intimidades, um bazar de frustrações, gracejos, indiscrições, comentários de mau gosto, rebeldias, grosserias, piadas internas, sub-revoluções. O pior, tudo em exagero, tudo em <em>over</em>, que termina esvaziando o sentido prático dos enunciados. Não há mergulhos em direção ao que é essencial, a comunicação fica anêmica como letra de Luan Santana. Pairando na superfície, sem imergir para a profundidade, todo o conteúdo da solidão.</p>
<p>“A solidão é uma condição psicológica caracterizada por uma profunda sensação de vazio”, define John Cacciopo, considerado um dos mais influentes psicólogos dos Estados Unidos justamente por estudar a fundo a solidão, seus sintomas e consequências. A proximidade dele com o tema levou a uma impressão particularmente otimista sobre esse fantasma que parece incomodar tanta gente. Cacciopo é do time que considera que metade deste sentimento vem de uma herança genética e a outra do contexto. Ele vai mais além, ao enxergar um movimento positivo justamente na atitude de tentar sair da solidão. Veja bem, até para o entusiasmado Cacciopo a solidão não é boa, mas sim a motivação para fugir dela.</p>
<p>O estudo dele sobre o impacto de redes sociais chega à conclusão de que se a utilização do site for feita para reforçar relações reais o impacto é positivo. A pergunta é se há alguém agindo dessa forma, se existe alguém usando o <em>face</em> para fortificar um contato já iniciado offline. Sim, existe, mas este segmento é tão minoritário em quantidade e tão obscurecido pelas filigranas da insensatez dominante que vira exceção. E aqui quero tratar é sobre a regra.</p>
<p>Qual a intensificação de um relacionamento ao publicar fotos em superclose de um auto-retrato ao acordar com direito a olhos inchados e tranças em dreadlocks? Ou reproduzir máximas como “me chama de Receita Federal e se declara pra mim”? (São exemplos reais que ficam disponíveis para qualquer um acompanhar, expostos como se fossem troféus, em que o paralelo na “vida real” seria alguém imprimindo e fixando com tachinhas cor de abóbora no mural do condomínio).</p>
<p><strong>Plataforma para a notoriedade</strong></p>
<p>Tudo isso é mais do que uma vitrine de banalidades. Para além dessa empreitada, esconde-se – ou se expõe – a perseguição a um status de liderança ou a reclamação a um suposto direito moderno à visibilidade ampla e irrestrita. Há um jogo de protagonismo social em andamento com pontos medidos em um placar de popularidade, feito a princípio pelo número de amigos (em um campeonato de sociabilidade), mas sobretudo pelo número de <em>curtir </em>que aparecem abaixo de frases e fotos, atestando valor, inflacionando o grau de sucesso que deverá ter a próxima iniciativa. Pessoas passam a ser examinadas e qualificadas de acordo com um escore de influência, um acordo velado por toda a comunidade. Adiante, será visto quão frágil pode ser esta avaliação.</p>
<div id="attachment_199" class="wp-caption aligncenter" style="width: 306px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/dzt.jpg"><img class="size-medium wp-image-199" title="DZT" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/dzt.jpg?w=296&#038;h=300" alt="" width="296" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Quanto valeria um clique na vida offline?</p></div>
<p>Neste ponto, reside a primeira expectativa de cura do sintoma solidão. Cada ato e atitude precisa ser validado no reconhecimento alheio, como o substituto tardio de uma carícia essencial. Homens e mulheres passam a construir uma personalidade lateral – com o sugestivo nome de perfil – que vai sendo moldada não mais por neuroses, psicoses, perversões (de Freud), complexos (de Jung), ou couraças vegetativas (de Wilhelm Reich). É uma estrutura que fica alicerçada por comentários, respostas, aprovações e reproduções de frases.</p>
<p>Perceber que a construção desta identidade digital extra ocorre a partir da aceitação no ambiente da rede social é como propor que um edifício seja construído pelo acúmulo de formas geométricas de uma animação eletrônica. Um condomínio inteiro formado por combos de Tetris. Falta robustez por causa da facilidade em oferecer um clique de presente, método que dispensa maiores investimentos empáticos. Usando a etimologia para dar a melhor definição, in = para dentro e pathos = sentimento, tem o sentido de ser levado ao lugar do outro, um movimento que exige dedicação, solidariedade, por que não dizer, legítimo interesse pessoal. Ser empático com alguém é quase um sinônimo de inteireza, de doação em plenitude. Nada disso, infelizmente, parece ser retratado no indolor e insípido clique que faz a alegria de muitos.</p>
<p>Basta questionar a qualquer um o grau de esforço para agradar, para concordar com um pensamento alheio, quando ele vem sublinhado na tela, e perceber que a dedicação é mínima, diferentemente do que seria empregado no cotidiano tradicional. Investir em um sorriso, um aplauso ou um elogio é mais pessoal e compromissado do que um simples movimento de mouse. No <em>facebook</em>, uma metonímia serve para dar um ar mais solene a procedimentos banais &#8211; os polegares, assim como no coliseu romano, podem fazer a diferença entre a vida e a morte.</p>
<p>O jornalista e escritor português Miguel Sousa Tavares é um dos principais pensadores e questionadores em Língua Portuguesa. Seu romance de estréia, <em>Equador</em>, passeia entre ficção e realidade, em uma narrativa inebriante que retrata os últimos anos da monarquia portuguesa, no início do século XX. É um talentoso apreciador de personas e hábil ao montar os caracteres de suas histórias. Aos 60 anos, declarou, não se sabe para iniciar uma polêmica farta ou por convicção catastrófica, que o <em>facebook</em> seria “a ameaça do século”, onde quase desconhecidos passam a ser tratados como amigos em um ambiente virtual, mas podem voltar a ser quase desconhecidos na realidade.</p>
<p>Rompe-se a hierarquização de informações de acordo com círculos de proximidade. Na maioria dos casos, todos os contatos (chamados de amigos) têm acesso a toda a informação, nivelados em parâmetros semelhantes, sem diferenciações tradicionais, como intimidade e tempo de convívio. Um comentário prosaico que cabe em uma mesa de jantar termina sendo direcionado a um primo, um chefe e até o zelador do prédio que estão em uma mesma seta de conversa. É como imaginar que você dirige um carro rumo a uma viagem de férias, conduzindo sua terapeuta, seu padrinho e o instalador da TV a cabo (grupo tão heterogêneo), todos compartilhando das mesmas anedotas.</p>
<p><strong>Querido <em>face</em></strong></p>
<div id="attachment_195" class="wp-caption alignright" style="width: 272px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/facebook_cao.jpg"><img class="size-medium wp-image-195" title="facebook_cao" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/facebook_cao.jpg?w=262&#038;h=300" alt="" width="262" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">O melhor amigo do homem?</p></div>
<p>Outro registro que pode estar associado a uma solidão endêmica é fazer a apropriação de recursos tecnológicos como elemento afetivo. A abreviação mais comum, conhecida como ‘face’, pode ser considerada uma nomenclatura carinhosa e, por si, um indicativo da urgência de familiarização com o produto. Neste ponto, a abordagem funciona como um código para diferenciar círculos distintos de clientes (supostamente, quem chama <em>facebook</em> estabelece certo distanciamento, enquanto os utilizadores do <em>face</em> reivindicam intimidade). Na síntese, há um processo de personificação do objeto. O <em>face</em> ganha contornos de ente querido.</p>
<p>Em uma remissão aos contos de fadas, às fábulas, seres inanimados ganham vida com o sopro divino ou com o desejo humano acompanhado da ação (o expoente maior seria Pinóquio, transmutado da madeira para carne, osso, sangue e desejos por um amor profundo do Criador). No caso de nosso estudo, o objeto sem vida (o <em>Face</em>) é o que parece animar os humanos, na completa inversão do sentido original dos mitos da criação. O homem deixa de ser sujeito para se tornar subjugado. Algumas frases marcam esta mudança paradigmática, como “não sei mais viver sem meu <em>face</em>”.</p>
<p>O ambiente virtual passa a fazer parte indissociável de vidas e até nortear biografias. O que dizer de alguém que divulga 25 fotos do parto, em um frame a frame cheio de sangues, gazes, camadas de gordura e placenta, tripas, tesouras e uma bebê coberta de gelatina cinza com cara amassada? Tudo isso para qualquer espectador que chegue até o álbum da princesinha, aberto e entregue para os olhares ávidos de extravagâncias e/ou bizarrices. Alguém há mais de reivindicar, depois disso, o título de exposição visceral?</p>
<p>A doença se revela em sintomas como aumento do stress e da ansiedade. Isso pode explicar uma estatística da empresa de que a média mundial de utilização chega a mais de 6 horas por dia de cada usuário (no Brasil, em um ano, houve aumento de 28 minutos para 2 horas e 24 minutos por dia). Será, realmente, que alguém colocaria seu perfil do <em>face</em> no fogo para dizer que passar um terço do dia útil relatando o que acontece nos outros dois terços é um sintoma de saúde psíquica, e não o oposto? Mas como o elemento apaziguador pode estar facilmente à mão, sem ilegalidades ou intermediários, não fica configurado o vício tradicional das drogas, tão condenado socialmente.</p>
<div id="attachment_200" class="wp-caption alignleft" style="width: 250px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/facebook-depression.jpg"><img class="size-full wp-image-200" title="facebook-depression" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/facebook-depression.jpg?w=600" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Americanos já são diagnosticados com &quot;fadiga facebook&quot;</p></div>
<p>Uma ansiedade de ficar sempre plugado para sufocar a impressão de que se está perdendo algo. Décadas atrás, não se podia perder alguma coisa interessante ou, para entrar em uma tautologia, não se podia perder o que era imperdível. Agora, não se sabe responder mais à pergunta: na internet, o que é imperdível?</p>
<p>O doutor em filosofia e articulista do jornal Folha de São Paulo, Luiz Felipe Pondé, que mantém uma conta no <em>facebook</em>, tem uma opinião crítica, que chega ao limite do sarcasmo. Para tratar com muito boa vontade a forma como ele adjetiva o fenômeno “redes sociais”, pode-se dizer que é uma “absurda bobagem”. Ele considera uma usina de frivolidades, com frases como “eu vou ao banheiro”, “vomitei”, que “expõe de forma obscena o fato de que gostamos de falar mal dos outros”. Ao retirar o que ele chama de histeria típica quando o assunto é rede social sobra apenas uma tentativa de fugir da monotonia com uma avalanche de banalidades da espécie.</p>
<p>Vale reproduzir um texto da editora da revista Época online, Letícia Sorg, que aparentemente por um acaso teve um <em>insight</em> sobre o turbilhão a que os seduzidos pelo <em>face</em> são tragados e não percebem:</p>
<p><em>Neste fim de semana tomei um susto ao olhar a caixa de e-mail. O Facebook tinha me escrito. </em></p>
<p><em>“Olá, Letícia, você não acessou o Facebook nos últimos dias; várias coisas aconteceram na sua ausência.”</em></p>
<p><em>De fato. Vários amigos – muito ou nada próximos – dividiram seus pensamentos, suas atividades, suas fotos. Suas alegrias, tristezas, reclamações. Seus gostos e desgostos. E eu não estava lá para ler.</em></p>
<p><em>Pensei: “Que bom”. Cogitei até responder à mensagem automática: “Olá, Facebook, várias coisas aconteceram na minha vida na sua ausência.”</em></p>
<p>Ficar um pouco consigo mesmo, lendo, refletindo, meditando, numa fila de cinema, na sala de espera do dentista, não significa, necessariamente, solidão. Só que este é um assunto que vale ponderações futuras. A questão é perceber se a massa de usuários (hoje, 800 milhões, em breve 1 bilhão) está realmente criando novas demandas de existência ou simplesmente tentando evitar esses cruciais instantes de auto-encontro.</p>
<p><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/depression_facebook1.jpg"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-201" title="depression_facebook" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/12/depression_facebook1.jpg?w=150&#038;h=68" alt="" width="150" height="68" /></a>Quando você perceber que alguma pessoa próxima está dedicando tempo demais ao <em>Facebook</em>, no computador, no celular, provavelmente fugindo daquele reflexivo momento que pode ser estar consigo mesmo, não se considere o estranho, o deslocado. Provavelmente, você ainda está suficientemente absorto pelas coisas reais para se enlevar por um canto de sereia ilustrado em moldura azul (não à toa uma cor com efeitos neutralizantes e anestésicos, que pode ter resultados hipnóticos no sistema nervoso central). E nisso, com certeza, você não vai estar só.</p>
<br /> Tagged: <a href='http://correlatos.wordpress.com/tag/angustia/'>angústia</a>, <a href='http://correlatos.wordpress.com/tag/facebook/'>facebook</a>, <a href='http://correlatos.wordpress.com/tag/redes-sociais/'>redes sociais</a>, <a href='http://correlatos.wordpress.com/tag/solidao/'>solidão</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/correlatos.wordpress.com/194/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/correlatos.wordpress.com/194/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=194&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Morte e vida no Campo Santo</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Sep 2011 21:19:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grande Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[bahia]]></category>
		<category><![CDATA[campo santo]]></category>
		<category><![CDATA[cemitério]]></category>
		<category><![CDATA[enterro]]></category>
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		<description><![CDATA[Na história do cemitério mais antigo da Bahia, uma tradição de arte, saudade, mistérios e sobrevivência Pablo Reis pabloreis@gmail.com Onde o senso comum se acostumou a enxergar dor e despedida, a descoberta de pequenas aventuras de alegria e sobrevivência. Desde a inauguração, em 1836, o Campo Santo coleciona mais de 170 anos de histórias que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=178&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Na história do cemitério mais antigo da Bahia, uma tradição de arte, saudade, mistérios e sobrevivência</strong></p>
<p><em>Pablo Reis<br />
<a href="mailto:pabloreis@gmail.com">pabloreis@gmail.com</a></em></p>
<p>Onde o senso comum se acostumou a enxergar dor e despedida, a descoberta de pequenas aventuras de alegria e sobrevivência. Desde a inauguração, em 1836, o Campo Santo coleciona mais de 170 anos de histórias que o tornam um cemitério incomum. Alvo de uma revolta popular que resultou em sua destruição parcial, em meados do século XIX, o equipamento sobreviveu à rejeição inicial para se tornar uma necrópole que reproduz signos da cidade dos vivos. Ali estão resumidos os conflitos de classes, dispostos nos imponentes mausoléus da entrada, em oposição às covas rasas dos fundos. Ali estão concentradas oportunidades de renda para milhares de famílias. Há também uma improvável coleção de episódios pitorescos, como um filho que sepultou a mãe em meio a piadas. O que nunca morre, entretanto, é a saudade pungente que domina as alamedas do Campo Santo, de tanta morte e vida.</p>
<div id="attachment_190" class="wp-caption alignleft" style="width: 510px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/09/camposanto1.jpg"><img class="size-full wp-image-190" title="camposanto1" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/09/camposanto1.jpg?w=600" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Saudade e sutilezas, angústias e poesia se encontram no último adeus no Campo Santo</p></div>
<p><strong>CAMPO DA SAUDADE</strong><br />
<em>Sentimento primaz no mais antigo cemitério de Salvador, a melancolia rende histórias de dor e emoção</em></p>
<p>O espectro da saudade ronda as alamedas sem vida do Campo Santo. A despeito de qualquer prova científica, o sentimento é o fantasma real assombrando de tristeza os que convivem por ali. No dia de Finados, o espaço chamado Vela Votiva se torna uma concentração do luto. As chamas bruxuleiam nos pavios e em volta delas os apelos de pessoas que se comprimem no bastidor de melancolia. O estreito cercado vira um amontoado de parafina, o subproduto da passagem de milhares que acendem um pouco da memória de um ente querido. <br />
“É&#8230; aqui acaba tudo”, reflete, de forma inequívoca, um homem com uniforme de empresa, aparentemente desviando alguns minutos do serviço para homenagear um parente morto. Em cada epitáfio, o resumo de uma saudade. No Dia de Finados, o fluxo de pessoas nem sempre atende a todos os jazigos. Ouve-se uma frase de alguém que parece só fazer uma visita anual ao Campo Santo, o cemitério mais antigo da Bahia, construído há 170 anos para abrigar o luto incessante da capital: “o que tá bem cuidado tem parente, o que não tá cuidado não tem parente”.<br />
São 280 sepultamentos por mês, em média, e cada um deles tem sua própria caravana de melancolia. Entre os imponentes, que são sepultados em mausoléus concebidos como obra de arte, e os humildes, velados na própria capela e enfiados a sete palmos da superfície de um terreno concorrido, há a uniformização do lamento, independente de classes sociais. Só que nem tudo é dor e morte no Campo Santo, uma empresa que representa a sobrevivência para 52 funcionários diretos e centenas de agregados. Há também contemplação e alegria, embora a visão primordial seja de um ambiente lúgubre, temido e aterrador. <br />
O vento quando sopra nas ruas da quadra 19 arrasta folhas e poeira, carrega besourinhos que insistem em pousar nas blusas dos desavisados. É lá que Valder Menezes descansa sua saudade matutina. A solidão de Valder multiplicada por 60, os anos de convivência com a esposa. Em frente ao carneiro gravado com o nome dela (uma gaveta em um dos muitos paredões), ele senta no banquinho branco que já deixa guardado na capela do Campo Santo. Só que é impossível descansar. Passa até duas horas lendo para ela, conversando com ela, lacrimejando com ela, um ritual obrigatório que parece minimizar o sofrimento de ser só. Tem sido assim há um ano e quatro meses, assiduidade comprovada por todos os funcionários. Qualquer um consegue reconhecer aquele senhor como o símbolo humano da resignação, embora ninguém tenha tido interesse em saber seu nome.</p>
<p><em>Aleluia</em><br />
O homem do banquinho gosta da leitura silenciosa de livros, das preces sem voz, da conversa com a amada. O ordenamento litúrgico de até que a morte os separe não funcionou para ele. O falecimento da mulher provocou o distanciamento físico, mas ele recusa se afastar de um sentimento tão vívido como o amor. O nome dela é a glória: Aleluia.<br />
Aleluia Farias Menezes, nascida a 2 de outubro de 1927, morta em 22 de agosto de 2006, conforme a lápide sempre limpa e ornamentada com flores e uma fotografia em moldura dourada, contou com a dedicação do esposo até o último suspiro. Ela, que começara a fumar desde a juventude, sem interrupções, terminou internada com complicações pulmonares, infarto e derrame, durante 120 dias. E, nestes quatro meses de agonia, o marido manteve a rotina de visitas vespertinas. Almoçava, tomava um ônibus do Rio Vermelho até o Bonfim, e ficava aguardando chegar 16h, horário que liberam a entrada de visitas no hospital da Sagrada Família. Permanecia ao lado da esposa até pouco depois das 18h, quando solicitavam sua saída.<br />
Fez assim durante quatro meses e só percebia a pele cada dia mais escura, eliminando líquido, embora os médicos insistissem que ela estava evoluindo para a cura. Chegou a acreditar no prognóstico dos especialistas e decorou o quarto totalmente para quando ela voltasse para casa. Um dia, pouco depois das 5h, ligaram para sua casa pedindo que comparecesse ao hospital. Ele já sabia qual seria a notícia e por isso levou o dinheiro que havia reservado ao sepultamento. Injusto para Valder enterrar a esposa amada, logo ele que sempre insistiu nos perigos do cigarro, sempre foi contra, mas como percebeu que não valeria a pena continuar lutando depois de décadas, ele mesmo passou a comprar as três carteiras diárias para a mulher.<br />
Valder se sacrificou pela esposa. Quando casaram, ele disse que ela não precisaria trabalhar, que ele proveria tudo. Hoje, está preocupado com o local onde o carneiro dela está localizado. Já comprou o jazigo perpétuo da companheira na quadra 13, por R$1100 à vista, mas só pode remover depois de 3 anos, tempo em que os ossos podem ser trasladados. “Tomara que ela não tenha mumificado para poder ser transferida para um lugar mais fechado, mais decente”.<br />
Acordou cedo para ir à missa que freqüenta na Piedade ou na igreja de São Bento, mas não teve celebração neste dia da Conceição da Praia. Chegou antes do habitual ao Campo Santo, retirou o banquinho da sacristia da capela, onde é autorizado a guardar o assento, e foi para lá levando o livro <em>Salvador dos contos, cantos e encantos</em>, escrito por um velho amigo dele, Geraldo da Costa Leal.  Sonhou com Aleluia nesta noite. Ela estava em frente da casa na rua Fonte do Boi, como sempre ficava aguardando ele retornar para dar um abraço. Só que dessa vez estava chorando. “Será que ela tá precisando de mim para alguma coisa? Acho que está bem”.<br />
Entre casais que convivem por muito tempo é comum notar que a morte de um geralmente abrevia a existência do outro. Este senhor já deixa o banco portátil branco guardado na capela para poder utiliza-lo todas as manhãs na companhia com a esposa, que jaz sob o mármore. “Peço a Deus que me dê pernas para que não possa deixar de vir aqui”.<br />
Entre tantos jazigos, tantas orações silenciosas, uma despedida escrita em papel ofício encardido vai flanando entre os túmulos. É como se ela valesse de recado para cada um residente da cidade dos mortos. O texto sobrevoa lápides com suas letras escritas em um português apressado contrapondo a gravação no mármore, registrada para sempre com alguma tipologia imponente. “O preço da felicidade é a saudade”, assinado por Nilson, com a data 2 de novembro de 2007.<br />
O soluço doído de um homem grisalho que passeia pelas moradas de entes queridos, dezenas deles, sempre tocando nas placas como se fizesse carícias nos nomes. Ele termina a peregrinação no túmulo da avó e ali ajoelha, encosta a testa na lápide, está prostrado pelo fardo de uma agonia reincidente. Apunhalado pelas lembranças, ele chora como se ninguém estivesse vendo, como se isolado do mundo em um quartinho onde lhe falta fôlego. É saudade que não passa e o Campo Santo cobra essa dívida em lágrimas.</p>
<p><strong>CAMPO DA HISTÓRIA</strong><br />
<em>Construção do Campo Santo obedeceu critérios de saúde pública e enfrentou resistência popular</em></p>
<p>Microcosmo da realidade, o Campo Santo é uma cidade mortuária que reproduz as condições de embate de classes da sociedade dos vivos. A partir da fundação, quando apenas os indigentes e escravos eram recolhidos para as covas rasas, até chegar na fase da compreensão burguesa sobre a necessidade de enterrar seus entes queridos longe das casas, o cemitério é um ponto de acolhimento sem distinção. Não chega a ser o caso de uma democracia do além, ou um comunismo para a eternidade – que iguala a todos no momento da despedida -, mas é uma síntese funérea das diferenças.<br />
As noções de higiene e saúde pública exigiam a construção de um cemitério distante de zonas residenciais. E isso, na década de 30 do século XIX, poderia ser encontrado na estrada para o Rio Vermelho, já fora dos limites da cidade, no morro do Outeiro Grande. Na Fazenda São Gonçalo, em 1836 começa a construção do cemitério do Campo Santo, alvo de protestos da comunidade.<br />
No início do século XIX, a pressão dos médicos sanitaristas era pela proibição de enterros em ambientes fechados. Os higienistas das décadas de 1810 e 1820 usavam a teoria em voga dos miasmas, espécies de vapores formados pela decomposição dos cadáveres, que seriam nocivos para a saúde humana. Uma lei do Governo Imperial de 12 de novembro de 1828 dotava as Câmaras Municipais de responsabilidade para legislar sobre o assunto.<br />
A casa legislativa de Salvador decretou a postura n° 20 encerrando de uma vez por todas os sepultamentos em igrejas, conforme registrado pelo engenheiro Paulo Segundo da Costa no livro Campo Santo – resumo histórico.</p>
<p><em>Primórdios</em><br />
A cidade dos mortos precede a criação humana de se reunir em aldeias. A idéia de um local para repouso eterno, segundo estudiosos, é mais antiga do que a fixação humana em outros sistemas de moradia. Uma caverna, uma cova marcada por um monte de pedras, eram os indicativos da reverência aos cadáveres.<br />
Na cidade de Bizâncio, capital do antigo império romano do oriente, os cemitérios ficavam nas imediações das igrejas. Os rituais fúnebres eram feitos no terceiro, nono e quadragésimo dia após a morte, com carpideiras pagas. No Brasil colonial, os senhores de engenho eram sepultados no terreno de suas casas, em capelas feitas como continuação das sedes de habitação.<br />
O primeiro cemitério a céu aberto que se tem notícia em Salvador é o do Campo da Pólvora, assinalado em plantas da fortaleza datadas de 1715. O terreno ocupava um retângulo murado no local conhecido como Pupileira. Na prática, funcionava como o espaço para a inumação dos cadáveres de escravos e indigentes. Com o início das atividades do Campo Santo, o Campo da Pólvora foi desativado e vendido em 22 de novembro de 1852 ao conselheiro Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos.</p>
<p><em>A cemiterada</em><br />
Dois dias depois da inauguração do Campo Santo por uma empresa privada, em 25 de outubro de 1836, uma mobilização popular terminou provocando a demolição do muro frontal e de uma parte da capela. O que seria uma reação coletiva contra o novo cemitério terminou descrito pelo provedor da Santa Casa de Misericórdia, em 1912, comendador Teodoro Teixeira Gomes, como uma orquestração de interesses vilipendiados. No discurso, citado no livro Campo Santo – resumo histórico, ele relembra que confrarias e ordens terceiras “concitaram o povo a acometer contra o cemitério do Campo Santo; aí chegando, o galgaram e desmantelaram como se fora um bastião”.<br />
Dias depois, a lei n°17 seria revogada e junto com ela cairia o contrato de concessão para a empresa, que seria indenizada em 12 de abril de 1839. A Santa Casa compraria, pela quantia de 10 contos de réis, o terreno totalizando 307.784 metros quadrados.<br />
Até por volta de 1860, persistiu o costume de enterrar as pessoas em recintos fechados, em capelas, igrejas e outros ambientes privados. Os primeiros sepultamentos no Campo Santo, em 1° de maio de 1844, foram de escravos e indigentes. À época, o transporte da urna funerária já revelava uma distinção social: homens livres e nobres eram conduzidos em carros puxados por cavalos, com quatro rodas; os escravos mortos eram levados em veículos de duas rodas.<br />
Macas feitas com panos e couro cru eram usadas para o transporte de cadáveres de pobres, com o nome de bangüês. A mudança para o Campo Santo implicava em uma distância de 4,5 quilômetros entre o Hospital da Santa Casa, na rua da Misericórdia, e as covas. Foi em 1846 que carroças começaram a ser utilizadas como forma de diminuir o esforço dos escravos. <br />
No início da utilização de bondes elétricos no transporte urbano, em 1898, a linha de n° 7 tinha como destino o bairro da Federação. Em pouco tempo, a empresa adotou o bonde funerário, justamente para suprir a demanda dos sepultamentos. Uma oferta diversificada de veículos, conforme o relato da folclorista Hildergades Vianna, no livro A Bahia já foi assim: “havia bondes com formatos especiais, preços tabelados, conforme a classe, com o fim exclusivo de levar caixões de defunto para o cemitério. Os cheios de cortinas e sanefas, plumas e tapetes, eram para os ricos. Para os pobres havia o franguinho d´água, quase nu de adornos, com modestas sanefas, que voavam quando o veículo corria nos trilhos. O bonde-misto, conduzindo ao mesmo tempo o defunto e os acompanhantes, era ainda mais modesto. Para os remediados, contava-se com um discretamente decorado, com laços e cortinas pretas.”</p>
<p><em>Obras e invasões</em><br />
Nas primeiras décadas de funcionamento, o cemitério do Campo Santo estava em obras constantes de ampliação com uma variação anual de 600 a 1300 enterros. Mas no exercício de 1855 a 1856, este número salta para 4225. E a explicação é dada na epidemia de cólera morbus que assolou Salvador em 1855. Apenas em dois anos da década entre 1852 e 1862, a balança entre despesa e receita esteve para o lado do lucro. A capela foi inaugurada em 7 de junho de 1874 e custou à Santa Casa 104:737$000 (104 contos e 737 mil réis).<br />
As primeiras habitações construídas por funcionários que prestavam serviço ao cemitério também deram início ao processo de diminuição do terreno original da fazenda São Gonçalo, comprado integralmente pela Santa Casa de Misericórdia. Da planta inicial, o cemitério ficou apenas como uma ilha em volta de sua própria cartografia. Foi diminuído como se fora um picolé sendo mordido pelas laterais, até restar apenas o núcleo mais demorado de derreter. “A construção de muros cada vez mais altos foi a solução para impedir a perda de mais área até que não sobrasse nada”, explica o gerente do cemitério, Antônio Quadros, um senhor afável e gentil que até para falar de um tema polêmico como esse não consegue perder a paciência.<br />
Em 2002, estimava-se que 90.000 m2 continuavam pertencendo à Santa Casa, dos mais de 300.000 m2 do terreno. Mas o levantamento topográfico mais recente, de 2007, calculou em pouco mais de 55.000 m2 utilizados pelo cemitério. Além disso, as áreas onde estão construídos dois postos de gasolina, na avenida Centenário e na Federação pertencem à instituição, mas são arrendadas. <br />
Os mais de 200.000 m2 perdidos do Campo Santo serviram para originar os bairros do Alto das Pombas, a partir da década de 40, e do Calabar, a partir de 1970. A perda do terreno do é apontada como resultado de uma chaga social que é o déficit de habitação. Um dos últimos locais ocupados foi o Grotão da Mangueira, onde havia o projeto de construção de um cemitério vertical.<br />
A partir da década de 70, a diminuição do espaço do Campo Santo começou a entrar em contradição com o problema da demanda de enterros. A expansão do cemitério esbarrava com a redução do espaço físico original. Em 1984, as notícias de jornal indicavam a asfixia de sepultamentos. Vinte anos depois, os enterros continuam sendo feitos, em ritmo controlado. O cemitério diminuiu de tamanho, mas supre o recebimento dos mortos, e responde pela sobrevivência de milhares de vivos.</p>
<p><strong>CAMPO DA SOBREVIVÊNCIA</strong><br />
<em>O comércio em torno do cemitério rende o sustento de centenas de famílias</em></p>
<div id="attachment_191" class="wp-caption alignright" style="width: 610px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/09/camposanto2.jpg"><img class="size-full wp-image-191" title="CampoSanto2" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/09/camposanto2.jpg?w=600&#038;h=800" alt="" width="600" height="800" /></a><p class="wp-caption-text">A capela do Campo Santo: memória e lamentos na necrópole</p></div>
<p><em></em><br />
O Campo Santo tem 52 funcionários, sendo que 35 deles são da equipe de inumação e exumação. Só que o mercado da morte garante a sobrevida de muita gente. “Não tenho dúvidas em afirmar que o cemitério é a maior empresa do Alto das Pombas. Praticamente todo o bairro sobrevive direta ou indiretamente de serviços relacionados a ele”, sustenta o presidente da Associação de Moradores, Rodrigo Alves. Desde o guardador de carro (pelo menos quatro disputam 14 vagas informais na rua lateral ao cemitério), até o gravador de lápide, muitos serviços ficam destinados a membros da comunidade. Um grupo de estudantes do ensino fundamental do bairro encarregado de fazer a pesquisa sobre a história e a cultura no cemitério e chegou à conclusão de que “a morte é vital para a maioria dos vizinhos”. <br />
É um segmento que dificilmente enfrenta a recessão porque a demanda é incessante, a não ser que você seja um dos personagens do realismo fantástico imposto por José Saramago no livro Intermitências da Morte, onde, repentinamente, os falecimentos deixam de acontecer, estabelecendo um caos social. Apesar de a vida eterna ser o sonho da quase totalidade dos lúcidos poucos são os que refletem sobre a necessidade social da morte. A morte que libera os leitos de hospital e não prolonga a agonia da saúde pública, a morte que impõe uma salutar renovação de agentes sociais, reproduzindo o ciclo biológico que presume o amadurecimento e o fim do organismo. E, principalmente, a morte que garante a existência dos que orbitam a constelação funérea de um cemitério.<br />
É a morte que há 35 anos norteia a vida e a obra de Ismael Santos Sales, um dos mais conhecidos comerciantes do Campo Santo. Desde criança, ele percebeu a oportunidade no momento de angústia e dor de seus clientes. Ficava rondando a porta do cemitério, fantasma pequenino em busca do lucro, com uma lata de manteiga na mão oferecendo flores de adornar jazigo, tentando cativar uma negociação em meio ao luto generalizado. Adulto, abriu uma portinha para a floricultura e, em 1988, comprou uma funerária.<br />
Os crisântemos e as rosas são as flores mais usadas nesse ramo. A menor coroa custa R$40, a mais cara pode ser até R$200. O caixão mais barato é de R$300, o mais caro é vendido por R$8,5 mil, já com abatimento. Em Dia de Finados, a venda maior é de ramalhetes. “É um negócio que dá pra viver, dá para passar e ainda tomar uma cervejinha”, minimiza Sales, que hoje tem uma frota de três carros para entregas, e pode se dar ao luxo de deixar o filho gerenciando a empresa, enquanto ele toma a cervejinha do início de noite de sexta.<br />
Com 68 anos de idade, José Cardoso, que tem o mesmo tempo de trabalho do amigo Ismael, não conseguiu fazer o mesmo pé-de-meia. Ele é do tempo antigo, quando Salvador tinha meia dúzia de funerárias: Ornamento, Duran, Fernandez, A Decorativa. Hoje, são mais de 90 empresas no ramo: o número de cadáveres multiplicou, mas a concorrência divide os lucros.<br />
O velho Cardoso é da época em que se velava o morto em casa &#8211; a família alugava castiçais e decorava o recinto com tons lúgubres -, por isso seu apelido é Baú. Hoje, um óbito pode ser feito à prestação e pago em 10 vezes, o futuro defunto pode até antecipar seus gastos pós-vida fazendo uma espécie de convênio. Só que na prática Ismael, que encomendava dois caminhões de flores por semana, atualmente fica apenas com um terço de um caminhão. De qualquer forma, ele é dos que venceram na vida com a ajuda da morte.  </p>
<p><em>Histórico comercial</em><br />
A vocação comercial do Campo Santo é iniciada antes mesmo da construção do equipamento. A Fazenda São Gonçalo fora comprada por 6 contos de réis pela empresa Augusto Pereira de Matos &amp; Cia, que obtivera concessão para administrar o cemitério pelo prazo de 30 anos. A Lei n° 17 da Assembléia Provincial da Bahia, datada de 2 de junho de 1835, estabelecia “privilégio exclusivo” para a empresa Cemitérios da Cidade.<br />
Menos do que um ato de filantropia, a idéia de construir o cemitério já se revelava uma astuta visão comercial. Um dos sócios da empresa, Caetano Silvestre da Silva, acenava com possibilidades de lucros inescapáveis de acordo com a pesquisa feita pelo historiador João José Reis, no livro A Morte é uma Festa: “O dr. Caetano Silvestre da Silva, em 1836, era juiz de Direito da 1ª Vara Cível e cuidava dos bens de pessoas mortas sem testamento e/ou sem herdeiros e julgava as disputas sobre partilha de heranças. Com acesso privilegiado a dezenas de inventários, ele certamente pôde transmitir a seus sócios as informações exatas sobre o potencial lucrativo de uma empresa funerária na Salvador de 1836”.<br />
Quinze dias depois da lei provincial, o contrato de concessão entre o Governo Provincial e a empresa estava assinado. A construção foi iniciada imediatamente como uma forma de sufocar a oposição ao privilégio de exploração exclusiva. A idéia era concluir a obra em um ano, com uma capela central, túmulos e jazigos para famílias de posses, além de covas rasas para os pobres. Como contrapartida, os empresários exigiram que o governo impusesse uma multa de 100 mil réis para quem fizesse sepultamentos em conventos, mosteiros ou confrarias. Os representantes de irmandades e paróquias foram justamente os primeiros a se pronunciarem contra a concessão. Um abaixo-assinado foi encaminhado ao presidente da província, Francisco de Sousa Paraíso, exigindo a revogação da lei 17. O principal argumento era ter vencido o prazo de um ano, já que era outubro de 1836. </p>
<p><em>Zeladores de covas</em><br />
A vida por entre jazigos tem sido o sustento de gente como Hermínia, Nizete, Maria Rosa e Adilson. São zeladores de covas, guardiões de lápides que informalmente têm uma responsabilidade sobre a limpeza semanal do mármore que veda as gavetas. Referem-se a mortos e parentes como clientes, sempre munidos de alguma escova, uma garrafa plástica com água pela metade, para regar as plantas e lavar os túmulos.<br />
Ganham R$5 a R$10 pela limpeza das gavetas e até R$20 por cada campa. Muitos já possuem os domicílios garantidos, outros ficam na entrada do cemitério abordando visitantes e oferecendo serviços. Hermínia de Jesus, avó de três crianças, sustenta praticamente a família toda porque o filho, que tem noções de eletricista, não arruma emprego em virtude de um envolvimento com drogas. Nizete Santos Silva começou nesse trabalho quando o filho tinha nove anos de idade. Agora, ele tem 28 anos e ela mantém a rotina cotidiana no Campo Santo. “É daqui que tiro meu pão de cada dia”. Adilson de Jesus, de 31 anos, é herdeiro da profissão da mãe Zilda. Ela adoeceu e não pode mais fazer o trabalho e por isso ele ficou com os clientes. Trabalha como vigia de um estabelecimento no Rio Vermelho à noite e durante o dia fica no cemitério. “Aqui é como se fosse uma empresa, com vários funcionários que formam uma família”. A administração não calcula o número exato desses ambulantes de serviços, mas estima-se que não são menos de 30 os que mantêm postos de trabalho constantes.<br />
Em datas especiais, esse número pode até triplicar. Dia de Finados, dia de trabalho para Mário Daniel, de 14 anos, que com 1,70m e 90 quilos merece o apelido de Gordo. Ele é mais um soldado da legião de meninos zeladores de túmulos, que se armam com esponjas e garrafas PET contendo uma solução quase nula de detergente. Ele, Uéslei, Rafael, Matias, Rodrigo, Janaína, são todos conhecidos e momentaneamente rivais na disputa por clientes.<br />
O Gordo está unido a um amigo de 17 anos, chamado Rafael Frank, que pela primeira vez trabalha no Dia de Finados no Campo Santo e por isso ainda tem certos pudores. Vale a pena acompanhar essa dupla. O Gordo já conseguiu mais de R$30 fazendo limpezas displicentes e apressadas em lápides. Rafael conseguiu cativar a primeira cliente só agora, depois das 15h, uma senhora que ele vai apoiando na mão, em uma caminhada lenta e respeitosa. Seu parceiro, ao contrário, vai andando rápido na frente, querendo chegar logo à campa onde pretendem limpar. Antes, ele tivera a ousadia de pedir uma carona no carrinho onde o coveiro transporta uma lápide e só não recebeu um cascudo como resposta por causa do espírito de introspecção da data.<br />
Chester, este é o apelido de Rafael, ouve o lamento da madame até chegar ao local onde estão depositados ossos dos avós, do pai e da tia. Ali, eles trabalham por uns 10 minutos na lavagem, no plantio de novos ramos de flores e por fim estendem as mãos para não receberem nada. A senhora paga o serviço com um módico “Deus te guarde”. Nenhum valor tinha sido acertado previamente pelo neófito Chester e por isso o Gordo fica indignado. “Você me fez trabalhar de graça”, reclama, emburrado, andando com as coxas se espremendo em uma bermuda apertada. “Mas rapaz, Deus nos ajuda”.<br />
Só que os benefícios divinos não são suficientes para o Gordo. “A bondade que você faz de graça não volta pra você de forma nenhuma”. E já segue adiante reclamando que Cabelinho está roubando uma cliente dele. É Dia de Finados e todos os meninos que ainda não pensam na morte têm pressa para ganhar uns trocados.</p>
<p><strong>CAMPO DE CLASSES</strong><br />
<em>A reprodução de diferenças sociais acompanha cadáveres até o abrigo da morte</em></p>
<p>Numa área marginal a ribanceira, com 5500m2, cerca de 1100 covas rasas atendem aos sepultamentos gratuitos do Campo Santo. As lápides funcionam como registro de um endereço para a eternidade e resumem o início e o fim de uma existência. Alguns têm as casas cobertas de heras, outros poderiam ser premiados com uma nova demão de tinta branca. Alguns partiram no ano passado, outros viveram pouco e deixaram pais saudosos de um maior convívio. Alguns foram sepultados há tão pouco tempo e já parecem tão abandonados.<br />
As covas rasas estão nos fundos, escondidas dos olhos do visitante comum porque apresentam uma uniformidade triste, reduzem o cemitério a um mero local de aproveitamento de sete palmos de terra. Nas áreas mais visíveis, os mausoléus apresentam o contraponto estético e conceitual aos túmulos escavados no chão. “O cemitério é um duplo da cidade dos vivos, é como se fosse um prolongamento e um desdobramento. Então, vai-se encontrar no cemitério, além de toda a diferença de classes, a história das formas de viver e morrer na Bahia. O carneiro corresponde na Bahia ao aparecimento dos apartamentos e do apart hotel; o túmulo do casal corresponde ao sobrado, e o mausoléu às grandes mansões”, reflete o antropólogo Roberto Albergaria, que estende a associação até a tendência à cremação, que seria “uma onda de higienismo mais high tech”, com direito a uma desmaterialização asséptica.<br />
“O Cemitério do Campo Santo é uma cidade em que se configura, de forma inusitada, a mesma divisão de classes que é vista numa cidade normal, com bairros de classes alta, média e baixa. Há também as periferias e as favelas, que são as covas rasas, as mesmas categorias sociais que se configuram nas cidades dos vivos”, opinou a professora de história da arte da Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Maria Vidal Camargo, quando perguntada sobre o tema para uma reportagem em 2003.</p>
<p><em>A morte em castas</em><br />
Os registros de sepultamentos no início das atividades do cemitério mostram a variedade que alguns utilizam como sinônimo de igualdade na morte. Além dos nomes e das datas de falecimento, dados como estado civil, profissão e causa da morte servem para identificar os cadáveres em cada degrau da pirâmide social. Domingos Borges de Barros, morto a 8 de maio de 1855, é identificado apenas como Visconde de Pedra Branca. Já sobre Luiza Maria da Piedade, falecida em 10 de dezembro de 1860, sabemos que era preta, morreu aos 50 anos, phtyzica, solteira e oriunda da África. Em 26 de Abril de 1876, morreu de “moléstia interna” Estephania Adine, 43 anos, branca, Paris, irmã de caridade, em contraposição a Anna Rita, ceifada pela mesma causa mortis, com 20 anos, África, preta.<br />
Até 1850, a situação física do Campo Santo não tinha qualquer planejamento paisagístico e estava longe de ser um espaço atrativo ao descanso eterno das classes mais abastadas. Só em 1846, dez anos após a cemiterada, o muro frontal que havia sido derrubado foi reconstruído. Um relatório do mordomo do Campo Santo datado de 21 de julho de 1844 aborda as precariedades do espaço e remonta um ambiente que parecia ermo: “cumpre que se cuide em aformosear o cemitério, com plantações de arbustos e flores, e mandando-se buscar alguns túmulos de mármore para serem vendidos a quem os quiser, promovendo-se assim, sem muito custo, a adoção desses monumentos consagrados à dor e à saudade”.<br />
Outro relatório, de 25 de julho de 1851, assinado pelo mordomo Manoel José de Magalhães e transcrito no livro Campo Santo – resumo histórico, dá uma noção de como evoluíra a ocupação na cidade dos mortos. “existem dois quadros, um mais novo que contém 458 sepulturas, das quais as mais antigas têm um ano; neste quadro é onde se enterram os cadáveres de pessoas livres; o quadro antigo contém 319 sepulturas, e nele já não existe nenhum lugar”.<br />
Um dos trechos mais pitorescos trata da remuneração do capelão contratado para prestar serviços no cemitério. Além do salário, ele tinha que receber a alimentação do cavalo. “Existem dois empregados, sendo um o Capelão com o ordenado de 260$000 que foi contratado para ir a seus enterros e missas; casa de morar, e um feixe de capim diário para sustento do seu cavallo; o outro é o Guarda com o ordenado de 300$000. Convém que a Mesa mande fazer outro sumidouro; casa de morada para o Guarda.”</p>
<p><em>Nuances de atendimento</em><br />
Há um embate nítido e muitas vezes hostil nos balcões onde o cemitério é tratado como negócio, onde um enterro tem que ser traduzido em um contrato e nas cifras que ele representa. A diferença é nítida quando se trata de parentes de uma pessoa que tem uma causa mortis natural e esperada. Estas mostram resignação, estão conformadas e quase sempre cumprem o ritual sem exaltação.<br />
Os familiares de um morto de forma violenta ou muito jovem estão sempre alterados, nervosos, podem explodir como uma bomba-relógio sentimental. São eles que merecem uma atenção quase paternal dos funcionários, principalmente nas situações em que o desespero se confunde com agressões. “Ninguém vem para um lugar desses satisfeito ou para se divertir. Aqui é a consolidação da morte, o local onde geralmente cai a ficha para os parentes que vão pensar: botou na sepultura não tem mais jeito”, justifica o supervisor Ancelmo Menezes.<br />
Essa erupção de decepções provoca episódios de grosseria, para dizer o mínimo. Um treinamento específico de atendimento para situações-limite começou em uma sala no andar superior da capela. A intenção é ensinar aos colaboradores como fazer um controle de raiva, minimizando o desgaste em casos onde um copo d´água é jogado no rosto de uma recepcionista. “É preciso muito cuidado até com a colocação de uma simples palavra, que pode ser interpretada por uma pessoa como um desrespeito à memória do falecido”.<br />
“O Campo Santo é uma escola de atendimento”, avalia Ancelmo, que gosta de falar que no local onde trabalha não tem oportunidade de dizer “seja bem vindo” ou “volte sempre”.<br />
As paredes de carneiros são tão uniformes de modo que algumas caixas mortuárias ficam muito parecidas. Tirando o nome ou uma ou outra característica fica difícil identificar logo de cara. Dá para perceber que alguns se atrapalham e podem dirigir as primeiras orações ao túmulo errado. Nesse ambiente onde não dá para aprimorar os conceitos de receptividade, há a partida motivada pelo erro.<br />
Hélio Silva era funcionário há 25 anos, estava prestes a receber certificado e medalha de bons serviços prestados, mas terminou demitido por justa causa depois de ser flagrado em reportagem da TV Aratu comercializando arcadas dentárias. A venda era supostamente feita para estudantes de odontologia. A explicação dada pelo funcionário é de que retirava os ossos da cova coletiva, onde vão parar os restos mortais que não são reclamados por parentes no tempo hábil. A atividade criminosa foi punida até mesmo para servir de exemplo a outros funcionários. “Constantemente, somos assediados por estudantes que querem comprar ossadas, mas isso não é permitido. Depois desse episódio, se havia algum funcionário que fazia o mesmo, ele vai pensar duas vezes”, aposta Ancelmo Menezes.</p>
<p><strong>CAMPO DA ARTE</strong><br />
<em>Transformação de cemitério em circuito cultural ressalta a beleza das obras nos túmulos</em><br />
Um pequeno templo à saudade, um mausoléu erguido em brancas lajes, com uma capela de dimensões reduzidas, chama a atenção na lateral da igreja do cemitério. É a homenagem de um marido apaixonado feita ainda no Anno de Nosso Senhor Cristo de 1885: “à memória de sua esposa Hermínia Ferreira Santos Alliom mandou seu marido construir este jazigo”. A reverência de 120 anos atrás perdura e continua encantando. O imóvel é parte do Circuito Cultural, onde um totem explica que a capela gótica é construída em mármore de Carrara, concebida pelo genovês Ângelo Ortelli, em 1884. <br />
Antes mesmo de receber o status de uma espécie de museu a céu aberto, o cemitério tinha virado centro de estudos interdisciplinares. Alunos de arquitetura, belas artes, moda e, ultimamente, turismo visitam não para reverência a entes queridos que estejam sepultados, mas como pesquisa de campo.<br />
Lucineide Bispo dos Santos percorre o Campo Santo como se participasse de um seminário. Com anotações em um papel, fotografias, ela vai finalizando o trabalho de conclusão de curso de Turismo na Faculdade São Salvador. Com as colegas Ana Patrícia Oliveira e Miriam Souza, resolveu fazer a monografia Campo Santo, um novo olhar sobre o turismo, abordando a prática como uma alternativa de atração de visitantes para Salvador. Descobriram que turistas de outros países estiveram recentemente no Campo Santo para apreciar as obras de arte sobre as lápides.<br />
No Père-Lachaise, em Paris, no Lês Moreres, em Barcelona, e no Recoleta, em Buenos Aires, este filão já é explorado há anos. “Aqui nós temos um cemitério rico, de inestimável encanto. Vale a pena visitar não pelos mortos ilustres, mas pelas obras-primas”, recomenda Lucineide Bispo.<br />
Patrícia Noelle e Alana Alves, ambas do 4º semestre de Decoração da Ufba, e Amine Barbuda, do 6º semestre de arquitetura, escolheram o local como cenário para um trabalho de faculdade. Elas fotografam formas e designs, vêem inspiração onde a maioria só percebe morbidez.</p>
<p><em>Socialização e arte</em><br />
A museóloga Jane Palma, criadora e coordenadora do Circuito Cultural, precisou reorganizar as próprias convicções religiosas forjadas no candomblé para enxergar a riqueza da arte cemiterial. “Havia uma idéia errônea sobre transformar o cemitério em um museu. O circuito tem como objetivo desmistificar o espaço cemitério, tirar o peso e mostrar que não é apenas um local de adeus, dor e tristeza. Pode ser pesquisado e é de fundamental importância para a evolução urbana”.<br />
Para conceber o circuito, Jane passou quase três anos assistindo a movimentação no cemitério. Nos velórios, percebia que muita gente se reencontrava e algumas pessoas iniciavam contatos, um ambiente de socialização.<br />
A montagem do circuito não foi feita visando túmulos de personalidades, como existe em outros cemitérios do mundo. Pode ser, em casos como os mausoléus de Octávio Mangabeira e Lauro de Freitas, que estética e notoriedade se encontrem. Na análise da arte cemiterial, cada elemento é signo de um sentimento, cada imagem representa uma mensagem universal. Os desejos do falecido são expressos em esculturas que, perto de um jazigo, ganham uma interpretação própria. As colunas, que na arquitetura tradicional têm função de estrutura, na arte cemiterial podem representar a eternidade (se estiver em fundo vazado), a proteção para a alma (com fundo fechado), ou o pilar da família ter ruído (se ela aparecer quebrada).<br />
A rosácea com oito pétalas dentro de um círculo é símbolo de poder gerador e representa equilíbrio cósmico. A morte pode ser protagonizada na imagem de um homem sem camisa com um martelo, ou então pode ser uma menina-moça com uma palma próxima a um jovem robusto carregando a chama da vida. Nesse caso, a família queria mostrar uma partida considerada prematura, como a de Lauro Farani de Freitas, morto em acidente de avião, aos 49 anos.<br />
A Estátua da Fé, tombada em 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ergue-se imponente em tamanho natural sobre o mausoléu da família do Barão de Cajahyba. A obra esculpida em bloco único de mármore Carrara, com 1,92m de altura, é a identificação do Campo Santo em todo o mundo. A mulher veste uma túnica longa e um manto, tem uma coroa de louros na cabeça e segura uma cruz na mão direita, enquanto a esquerda é apontada para o céu. O trabalho se destaca pela simetria e proporcionalidade, em que a toga parece cair com leveza sobre o corpo feminino.<br />
Os símbolos são de fácil associação: a mulher representa a fé, e a cruz a fé cristã, a coroa de louros significa vitória e o manto é uma proteção. O trabalho feito pelo alemão Johann von Halbig, em 1865, foi comprado por Alexandre Gomes Ferrão d´Argollo, o Barão de Cajahyba, na ocasião da morte do primogênito José Joaquim, de 20 anos, na Baviera. Em 1973, o monumento foi doado pela família ao Governo da Bahia. O Barão de Cajahyba, considerado um senhor de engenho cruel, responsável pela perversidade e castigos aos escravos, tornara-se um mecenas da mais significativa dádiva da arte tumular do estado.</p>
<p><em>Campo da alegria</em><br />
O último sepultamento é marcado para 16h30, mas todos sabem que até as 17h sempre há trabalho. Há um ambiente de alegria, até mesmo com confraternizações depois do expediente e comemorações dos aniversariantes do mês. Em pleno santuário de reverência à morte, os aniversariantes são brindados com uma festinha, com direito a refrigerante, brigadeiro e tortas. Há vida no Campo Santo.<br />
Ancelmo Menezes, o prefeito da cidade dos pés juntos, ganhou esse título honorífico dos conterrâneos de São Sebastião do Passe. Ao contrário dos colegas que evitam falar que trabalham no cemitério, como se isso fosse denunciar alguma moléstia contagiosa, e geralmente despistam afirmando que são funcionários da Santa Casa de Misericórdia, ele assume a condição de supervisor do Campo Santo com a mesma empolgação com que alguém levanta a taça de campeão do torneio de futebol dos rodoviários. Há 13 anos, é dele a missão de intermediar interesses, fiscalizar o trabalho no campo e mais do que tudo colecionar as histórias que subvertem o sentido lúgubre do cemitério.<br />
O cemitério é um local onde se guardam ossos e não jóias. Apesar desse princípio em que uma urna funerária pode ser qualquer coisa menos um cofre, muitos bens preciosos ou de valor meramente sentimental podem ser enterrados junto com um corpo. Basta uma escavação aos mais profundos esconderijos dos objetos para a surpresa e o encantamento. São itens que falam muito sobre a vida e a personalidade do defunto, como colher de pedreiro, capacete, trena, luvas, no caso de operários enterrados nas covas rasas. Entre os fidalgos, garrafas de whisky ou destiladas para o caso de não existirem botequins no além. De meninas a senhoras, muitas são as que ficam com bonecas. Há os fanáticos que são acompanhados pelos artistas representados em discos e CDs. Só que os artigos mais utilizados neste tipo de homenagem fúnebre, de acordo com os coveiros, são camisas e bandeiras do Bahia.<br />
Houve o piadista que ficou famoso entre os funcionários porque chegou para o enterro da mãe já contando uma lorota do papagaio. Assinou o contrato do jazigo emendando a última do português. No meio do velório, alguns parentes choravam e ele, filho da defunta, se divertia falando anedotas politicamente incorretas. O pior é que o homem tinha mesmo vocação para humorista e muitos não conseguiam reprimir um riso, mesmo que fosse constrangido com a situação. <br />
Só antes do funeral, ele resolveu explicar que tinha feito um acordo com a mãe em estado terminal e que ela pedira para ter alegria na cerimônia, nem que fosse com ele contando piadas. O filho cumpriu com requintes de comicidade a promessa. Até o fechamento da sepultura animou a cena, enquanto os mais tradicionais continuavam as orações e mostravam o desconforto com o inusitado festival de chistes. Outros tentavam controlar o riso, mesmo sabendo que o filho estava apenas executando o último desejo da falecida e não treinando para a olimpíada mundial de exóticos.<br />
Um tipo de humor involuntário foi o que ocorreu no enterro de um senhor fidalgo, funeral bastante concorrido, que virou lembrança fácil e rápida na cartilha de gafes decorada por coveiros e auxiliares. No meio da despedida, um dos amigos com aparência que tinha afogado a saudade em algumas garrafas de cachaça pediu a palavra para recordar o companheirismo que vinha desde a infância em comum com o ilustre. E nas reminiscências juvenis do homem, ele desfilava memórias da época em que trocavam amabilidades do tipo “abaixa que lá vem p&#8230;”. O mal estar quase se transforma em gargalhadas dos funcionários, que precisaram disfarçar a vontade de rir. Uns e outros se esforçaram para abafar o discurso por demais afetuoso e tirar daquele ambiente o lastimoso amigo. É mais uma história concebida na morte, que enche de vida o Campo Santo.</p>
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		<title>Bala na Agulha</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Mar 2011 23:12:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[ed bala]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele já foi cobrador de ônibus, vendedor de picolé, garçom e até já foi Edvaldo; hoje é apenas Ed Bala e já planeja estrear como cantor de forró Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) A glória para Edvaldo foi ter o nome pronunciado como o quinto escolhido, entre cinco vagas para cobrador de ônibus. Depois de seis tentativas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=169&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Ele já foi cobrador de ônibus, vendedor de picolé, garçom e até já foi Edvaldo; hoje é apenas Ed Bala e já planeja estrear como cantor de forró</em></p>
<p><strong>Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)</strong></p>
<p>A glória para Edvaldo foi ter o nome pronunciado como o quinto escolhido, entre cinco vagas para cobrador de ônibus. Depois de seis tentativas em recrutamentos de diversas empresas, enfim, ouviu o gerente dizendo o nome que parecia uma senha para a riqueza imediata: Edvaldo de Jesus Barreto. “Rapaz, fiquei feliz pra caramba. Todos os meus sonhos pareciam estar se concretizando”, enuncia o esfuziante cobrador, mais de 15 anos depois do episódio.</p>
<p>Ele não sabia, mas iria protagonizar o que seria o caso mais rápido de contratação e demissão da história do sistema de transporte público de Salvador. Dez minutos depois, o mesmo gerente o convocou para a sala, sozinho, pegou a pasta com todos os documentos necessários para a admissão, colocou tudo na mesa em frente, deu uma respirada de pêsames e disse de forma seca: “sinto muito, mas ficou decidido que você não vai fazer parte de nosso quadro”. Edvaldo primeiro engasgou, depois tossiu, começou a perder o fôlego, imaginou que nunca iria ter uma lanchonete, passou a mão na cabeça, sentiu o chão desaparecer sob os pés, percebeu que a sala estava toda rodando e teve a certeza de que aquele filme todo é o que acontece nos relatos de quem tem uma morte iminente. “Caiu tudo ali pra mim, negão”.</p>
<div id="attachment_170" class="wp-caption alignleft" style="width: 239px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/03/edbala1.jpg"><img class="size-medium wp-image-170" title="edbala1" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/03/edbala1.jpg?w=229&#038;h=300" alt="" width="229" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">De vendedor de caldo de cana a artista multimídia: ralação recompensada</p></div>
<p>Como o chefe não queria ser depois acusado de um homicídio culposo, apenas esperou ele levantar com a aparência de zumbi operário e disse que tudo não passava de uma brincadeira. “Rapaz, eu pulava, me jogava no chão, comecei a gritar, chorei, puxei o cabelo do cara, fiquei maluco”, conta Ed Bala, uma espécie de agitador cultural multimídia, que de ex-cobrador nascido na periferia passou a garoto propaganda e debochado repórter de televisão em pouco mais de 10 anos, numa trajetória de obstinação e senso de humor. “Acho que naquela hora ele fez aquilo para eu perceber a verdadeira importância de um emprego”, minimiza o paciente de uma síncope da demissão prematura.</p>
<p>A pegadinha não foi a primeira e nem a única vez em que gozação e realidade se encontraram na vida desse exótico personagem de si mesmo. Apenas foi uma em que ele não era o ator, mas sim a vítima. Nascido em uma família simples do bairro de Pau da Lima, o irrequieto Ed não esconde que sempre quis morar no centro da cidade e, se possível, ficar no centro das atenções. Para chegar no palco eletrônico, vestiu primeiro os figurinos de vendedor de picolé, carregador de caminhão, garçom, animador de festa infantil e até mesmo mascote do Bahia, um boneco sorridente de cabeça grande com quem ele teve a idéia de dar cambalhotas na Fonte Nova.</p>
<p>O primeiro emprego formal foi aos 14 anos, como menor aprendiz no gabinete do secretário estadual de saúde. Ed chama o cargo de auxiliar administrativo, o que na prática significava levar correspondências pelo órgão, transportar documentos, receber processos e requisições dos contribuintes. Resumindo, era boy, que gostava de carimbar uns protocolos com a mulherada madura. “Na época, as coroas já conspiravam dizendo que eu seria galã de televisão. Acho que porque eu sempre fui branco dos olhos claros”, sugere, assumindo ares de galanteador da puberdade.</p>
<p><strong>Estréia na TV</strong></p>
<p>Ainda não tinha atingido a maioridade, quando estreou na tv de forma imprevisível em 1987. Estava no Campo Grande enciumado com a namorada, que foi abordada pelos diretores Ed e Pola Ribeiro, à procura de um rosto desconhecido para um comercial. Ela recusou por se achar sem perfil para a missão, mas recomendou o irreverente namorado. “Chamem que ele tem jeito para essas coisas”.</p>
<p>Assim, aos 17 anos, gravou o comercial para o cursinho Einstein. Era um texto que não exigia muito da incipiente capacidade cênica do jovem:</p>
<p>- E aí, passou no vestibular?, perguntava a atriz.</p>
<p>- Não, respondia ele.</p>
<p>- Por quê?</p>
<p>- Porque estudei.</p>
<p>- Como assim?</p>
<p>- Estudei em uma sala com mais de 400 alunos.</p>
<p>Aí entrava o texto explicativo sobre o Einstein &#8211; o cursinho genial &#8211; cujo máximo de ocupantes em cada sala seria de 80 estudantes. E Edvaldo, o suburbano ator, voltou para Pau da Lima divulgando a todos os vizinhos que iria aparecer na televisão. Passaram-se três meses para ganhar a fama de culhudeiro. Até que a propaganda começou a ser veiculada e ele se deu conta de como o acaso foi importante em seu destino. “Estava escrito nas estrelas. Eu nem costumava sair do meu bairro e no dia que fiz isso fui descoberto por Pola”, impressiona-se.</p>
<p>A história poderia terminar aí com a gênese de um grande sucesso juvenil das telas. Mas, aos 19 anos, terminou o contrato como funcionário público e passou mais dois anos desempregado. Só não ficava parado em casa. Vendia sonho e banana real na rua, se oferecia para descarregar caminhão de madeira, fazia trabalho de pintura de apartamentos, arrumou caixa de picolé para vender na praia, em uma hiperatividade de quem sabe desde cedo como é difícil se sustentar. Com 20 anos, percebeu que vender sanduíche natural dava dinheiro. Olhou para uma máquina de caldo de cana que um amigo tinha desativado e começou a imaginar aquelas engrenagens funcionando como moinhos de  sobrevivência financeira.</p>
<p>“Néu, você me empresta essa máquina, maluco?”</p>
<p>Néu emprestou e, junto com Mundinho e Jacobina, ainda deu o primeiro financiamento para que ele pudesse instalar um motor na geringonça. Assim surgiu a banquinha do Rango do Val, um apelido que o jovem Edvaldo não gostava, mas que achou de uma sonoridade boa para a freguesia.</p>
<p>Só que a vida não era doce como o líquido que escorria dos copos direto para as gargantas ávidas dos clientes. Precisava acordar de madrugada e tomar o primeiro ônibus para a Feira de São Joaquim, onde comprava cinco feixes de cana e ainda dava um trocado para um menino voltar correndo e levar para dentro do mesmo coletivo. Esse é o tipo de episódio de infância que muita gente que venceu na vida pode até relatar, mas contado por Ed Bala vira uma verdadeira odisséia de trapalhadas e dramas.</p>
<p>Faltava colocar em prática uma carga artística que tinha sido herdada do pai, o ex-animador de festas de largo em Pau da Lima. Para sustentar os seis filhos, seu Manoel Barreto, o Barretinho, transportava água no lombo de um jegue e distribuía nas casas das redondezas, uma espécie de vila primitiva. Durante o carnaval, ele conseguia uma verba na prefeitura para fazer a festa no subúrbio. O próprio Barretinho assumia o microfone na atividade que parecia ser uma realização pessoal. Até os 12 anos, o menino Edvaldo acompanhava aquele delírio mambembe, misto de cabo eleitoral e Chacrinha.</p>
<p><strong>Sem energia</strong></p>
<p>A falência do caldo de cana fora determinada pelo corte de energia do fornecedor informal do Rango do Val, que oferecia uma fiação em troca de alguns lanches de graça. Percebeu que deveria ter a sonhada carteira profissional assinada. “Fui procurar um trampo de cobrador de ônibus”, recorda. O resto de sua saga como rodoviário já foi relatado, menos a parte em que ele decide trocar a catraca pela coxia. Empolgado com o curso livre de teatro e a possibilidade de estrear na peça Noites Vadias, entrou numa roda viva em que largava os ensaios meia-noite e tinha que acordar às 4h da madrugada para entrar no primeiro ônibus que fazia a linha de Engomadeira. Depois de duas faltas, recebeu o conselho que largasse o teatro ou então iria ganhar um aviso prévio. Só que o desejo de estar no palco superava um contra-cheque de final de mês. Terminou demitido. E feliz.</p>
<p>Além do mundo cênico, começou outra empreitada no ramo da gastronomia. Inaugurou a lanchonete Ed Burguer &#8211; o império dos lanches -, segundo o próprio slogan que dominou os desejos dos moradores de Pau da Lima. Especializou-se na criação de sanduíches com nomes exóticos, como Ed Glú, Glú-Glú, X Có, Corococó. Interrompeu a ascensão como comerciante de delícias na periferia justamente porque a missão artística convocava. Em uma das apresentações, foi parar em Fortaleza com uma trupe que reunia até o hoje galã de telenovelas Vladimir Brichta, mostrado para o repórter em uma foto de recordação como um esquálido adolescente. Edvaldo decidiu que ficaria um tempo na capital cearense. Esse rápido encantamento durou não menos que um ano e três meses, período em que era uma espécie de guia turístico e humorístico de um show chamado Alegria Brasil.</p>
<p>Na volta para a Bahia, já não tinha mais apetite para tocar a Ed Burger e começou a ganhar dinheiro fazendo animações de todos os tipos. Em aniversário infantil, telegrama animado, feiras de convenções e apresentações em perna-de-pau, lá estava Ed, promovendo a festa. “Ganhei grana na época, consegui comprar uma moto CG, de 1987. Tudo na base da comunicação, né rei”, avalia o escrachado ator.</p>
<p><strong>Amor de garçom</strong></p>
<p>Só não faz gracejo nenhum quando fala da companheira Mabel, a quem teve de conquistar quando ainda era garçom e ela uma estudante universitária de classe média. Há uns 10 anos, ele servia as mesas na cachaçaria Alambique, no Pelourinho, e não se intimidou em procurar graça com aquela cliente vistosa. A morena hoje admite que não levou a conversa com muito bom humor e não estava nem um pouco interessada. Mas Edvaldo conseguiu uma brecha para mostrar algumas virtudes e terminou encantando a filha de um advogado, que não gostou nem um pouco do romance improvável.</p>
<div id="attachment_171" class="wp-caption alignleft" style="width: 222px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/03/edbala2.jpg"><img class="size-medium wp-image-171" title="edbala2" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/03/edbala2.jpg?w=212&#038;h=300" alt="" width="212" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Cantor de forró: carreira definitiva ou só experiência?</p></div>
<p>Ela, entretanto, usava o dinheiro da mesada para ajudar nos sonhos do parceiro e chegou a dar de presente de aniversário uma matrícula no curso para ator de propaganda ministrado por Rada Zaverutcha. “O que eu mais incentivei ele foi a ter um celular, porque percebi que estava perdendo trabalho pela dificuldade de ser contactado”, relembra ela. “Passei a admirá-lo. Um cara que saiu da pobreza em Pau da Lima e conseguiu vencer na vida como um batalhador”, elogia a mulher, que na semana passada, enfim, ganhou um cobiçado anel de noivado.</p>
<p>O casal mora junto no andar de baixo da casa dos pais dela, em Brotas, onde cuida dos “filhos” Jujuba e Pitu, um afável par de pitbulls. O sogro dele só deixou de torcer o nariz quando percebeu que o genro, aparecendo na televisão, deveria realmente ser bom no que faz. Para chegar a repórter de tv, fez uma fama relativa como garçom performático do restaurante mexicano Cien Fuegos, onde incorporava o personagem El Bigodon. Em uma psicodélica Festa em Quadrinhos, foi descoberto pela turma da incipiente TV Salvador e poucos meses depois já apresentava o programa Noite a Dentro. Em seguida, a atração mudou para De Ponta Cabeça e ele, enfim, consolidava o nome artístico que queimou pestanas para bolar. Era Edvaldo Barreto, depois Edvaldo de Barreto, pensou até em Ed Bach, mas só depois de um brainstorming de letras e conceitos chegou a Ed Bala. “Se encaixa perfeitamente comigo, porque sou um cara meio espoleta. Atingiu em cheio o alvo que eu queria”, explica.</p>
<p>Fora de programas de televisão desde 2004, tornou-se garoto-propaganda da Comercial Ramos. Recentemente, lançou um site pessoal (www.edbala.com) com fotos, músicas e um trecho da biografia, que pretende transformar em portal de humor e civismo. “Vou colocar notícias de iniciativas culturais das comunidades”, promete. Mais urgente é seu projeto de virar forrozeiro do gênero irreverente, prometendo não apelar para a baixaria. Ele é o líder da banda Bala N´agulha, que deve regravar sucessos de Genival Lacerda e outros nomes consagrados do ritmo, como Luiz Gonzaga, mas também lançando composições próprias.</p>
<p>A médio prazo, Ed Bala acha que tem um espaço no universo artístico do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Mas ainda este ano pretende executar dois projetos. O primeiro é ter um monólogo de humor, um estilo chamado nos EUA de comédia standup, em que vai emendando experiências pessoais com crônicas de costumes. O outro é iniciar uma série de palestras nos bairros periféricos contando toda essa história de superação, em uma espécie de lição de auto-ajuda ao vivo, em 60 minutos. “Talvez, minha trajetória sirva de exemplo para essa moçada. Acho que o conselho principal é que é preciso arriscar, não pode ficar naquela miguelagem”, ensina. É o tipo de ensinamento que, depois de tanta aventura, ele não precisaria passar por faculdade para dar. Mas agora é hora de dar ração para Jujuba e Pitu e o melhor é ir embora, que eles não estão achando graça nenhuma.</p>
<p><em>* reportagem produzida em maio de 2006</em></p>
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		<title>Profissão: fiscôla</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Feb 2011 16:54:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grande Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[banheiros públicos]]></category>
		<category><![CDATA[fiscolas]]></category>
		<category><![CDATA[invasão de privacidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Eles se espalham por banheiros públicos para saciar o prazer de averiguar o pau alheio Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Sim, eu precisei ser fiscôla durante uma semana, mas com tamanha falta de vocação que se fosse uma profissão regulamentada, regida por um conselho, teria meu registro cassado em tão pouco tempo que o acesso a qualquer [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=162&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Eles se espalham por banheiros públicos para saciar o prazer de averiguar o pau alheio</em></p>
<p>Pablo Reis (<a href="mailto:pabloreis@gmail.com">pabloreis@gmail.com</a>)</p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Sim, eu precisei ser fiscôla durante uma semana, mas com tamanha falta de vocação que se fosse uma profissão regulamentada, regida por um conselho, teria meu registro cassado em tão pouco tempo que o acesso a qualquer banheiro vagabundo de churrascaria de beira de estrada seria vetado. “Nos termos da lei, de acordo com convenções de ética e normatização, </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">a saber, averiguar, medir, encarar, fazer carinha de quem está se deleitando e ainda se oferecer para ajudar na balançadinha, o senhor está formalmente destituído do cargo de fiscôla”.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Ser fiscôla, ao contrário de uma profissão, é uma vocação, algo como uma arte, como Michelangelo não precisou de faculdade para esculpir e nem Cuíca de Santo Amaro alisou banco de universidade para destruir reputações com sarcasmo e rimas de memorização rápida. Para motivos de apresentação, fiscôla é o nome carinhoso de um popular personagem da crônica social contemporânea: o fiscal de rola. Se você não conhece e nunca ouviu falar, sorte sua.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">São despudorados que ficam ali inertes, dando olhadas para os lados enquanto fingem verter água (como diziam os velhos machos sertanejos). Ficam se massageando por minutos. Se houver cinco ou seis mictórios livres distantes de você e mesmo assim ele chegar ao seu lado, como se o resto estivesse ocupado e apertado, pode crer, é fiscôla. A definição de fiscôla não é feita a partir de uma mera observação empírica ou arbitrária para saber se alguém passa mais tempo do que o necessário em ato de micção contemplativa. É um feito comprovado pela </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">ciência a partir de uma combinação de experimentos e pesquisas. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Sabe-se, por exemplo, </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">que o volume máximo suportado pela bexiga humana é de 500 ml. E que um fluxo urinário </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">menor do que 15ml/s já é indicativo de alguma obstrução da uretra ou falha no aparelho excretor. Nesse caso, 35 segundos seria tempo suficiente para executar o serviço sem maiores envolvimentos emocionais, com a frieza de um magarefe dilacerando vísceras bovinas, ou como o tenista Roger Federer ganha mais um torneio de Grand Slam. Mesmo assim, vamos dar uma margem de erro de 90 segundos regulamentares entre abrir o zíper e dar a última balançadinha. </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Passou de um minuto e meio, pode ter certeza, é fiscôla.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">O fiscôla típico renega o olhar oblíquo que se estabelece na troca de uniforme de um time de futebol, aquela coisa meio envergonhada de quem não quer fitar diretamente o objeto da curiosidade. O fiscôla padrão tem o olhar reto e olímpico. Ele encara como se tivesse autoridade</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">completa do ato e errado fosse quem quisesse se ocultar. O banheiro do 2° piso do Iguatemi é </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">uma espécie de Meca da fiscôlagem. É um dos mais mencionados nas ligações anônimas para a Rádio Metrópole, ou sempre que o tema é suscitado em uma roda de meia dúzia que invariavelmente se dizem ofendidos com a atitude.</span></span></p>
<div><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;"> </span></span></div>
<div><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;"></span></span></div>
<p><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;"></p>
<div id="attachment_165" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/02/fiscola1.jpg"><img class="size-medium wp-image-165" title="fiscola1" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/02/fiscola1.jpg?w=300&#038;h=206" alt="" width="300" height="206" /></a><p class="wp-caption-text">Um mijante solitário: vítima preferencial de um fiscola saltitante</p></div>
<p> </p>
<p></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Não há estatísticas confiáveis sobre a quantidade de fiscôlas dispersos pela capital baiana. Apesar de terem uma função fiscalizadora, não estão reunidos em entidade de classe. Vagam espalhados por banheiros sem uma rota de migração explicável. Voltaram ao banheiro do terminal rodoviário desde que a taxa de utilização (coisa de 50 centavos por uma mijadinha) deixou de ser cobrada. Naquele espaço, a existência de um tipo ainda mais inusitado: o fiscal dos fiscôlas. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">É o funcionário que passa meio expediente sentado em um banquinho </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">defronte ao átrio de mictórios, como se estivesse ali para auxiliar qualquer demanda urgente. Mas não, a real função dele é intimidar a ação invasiva dos delinqüentes visuais. Fiscôla é bom para olhar, jamais para ser olhado. O fiscôla pode não se considerar viado, exerce seu papel social sem ter traumas de masculinidade. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Para M. Carlos começou com a curiosidade de medir o pau dos outros na adolescência. Hoje, adulto, pai de um casal jovem, age como um hobby. Visita banheiros com o olhar por vezes milimétrico, já que não pode usar uma trena, prefere </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">exercitar a capacidade de avaliar tamanhos e formas por meio de analogias: aquele parece </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">um desodorante feminino, este fica mais para um churro pela metade. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">A atuação deles geralmente é negada, mas no Iguatemi um segurança faz ronda a cada 20 minutos na porta do banheiro para verificar a normalidade no local ou se alguém esqueceu do mundo cá fora. Um </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">gordinho no Shopping Barra só falta criar um crachá pra si mesmo com a inscrição:fiscôla oficial do perímetro. Ele cerca os usuários do WC com a vigilância de um perdigueiro farejando saciedade.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><strong><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Fiscolando em alta</span></span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Banheiro do 3° piso do Shopping Piedade, bem vindo à fortaleza da fiscôlagem. Ou, a depender de quem olha, à visão do inferno. Quem entra num momento de mais empolgação, se assusta e lamenta ter deixado tanta cerveja acumulada para um único jorro de despedida. Alguns saem fugindo indignados, outros rindo da própria sorte. A arquitetura do espaço de 3,5m² com oito mictórios dispostos em duas fileiras de três e de cinco é, por si, uma sugestão de fiscôlagem. Algumas vezes, os cinco vasos ficam desocupados enquanto os outros três são disputados por ávidos observadores.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">É mais assustador, por exemplo, ao se deparar com um rapaz manuseando o pau com um ritmo de fabricante de argila, naquilo que os fiscôlas chamam delicadamente de “esmerilhar” a pica. Mantém o membro em uma consistência “pururuca”, que é um estado físico de quase ereção, em que não se observa a flacidez de um marshmallow e nem a rigidez de uma vela de sete dias. É uma morfologia intermediária, tipo uma mangueira de gás.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Este é representante legítimo da categoria do Performático Apreciador de Olhares ou, simplesmente, o PAO. O auxiliar de serviços gerais que pega o turno de tarde e fica até às 22h convivendo com toda a silenciosa troca de olhares é como uma mulher sinuosa em pé num coletivo lotado, tamanho o desconforto que demonstra. Val, o apelido pelo qual prefere ser chamado, não aparenta tanto asco na hora de recolher o papel higiênico usado de um balde como quando entra e se depara com os olhares gulosos no mictório. “O pior é quando estão se pegando, aí tenho que chamar o segurança”, resmunga ele, um moreno magro de quase 30 anos que outro dia recebeu uma proposta no banheiro e quase responde na força bruta.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">O formando em jornalismo pela Faculdade Jorge Amado, Tedson Souza, encarou a selva de azulejos e porcelanato por vontade própria para finalizar um trabalho de conclusão de curso sobre sexo público. A escolha de uma série de reportagens de rádio o levou a descobrir que alguns locais se tornam guetos de devassidão: da fiscôlagem, os mais atrevidos passam à prática. “Geral<span style="color:black;">mente são homens casados, até com filhos, que vão nesses locais para extravasar o desejo reprimido pelo preconceito”, sugere Tedson, que descobriu uma comunidade no Orkut </span></span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">chamada Clube do Banheiro SSA para troca de confidências e experiências. No fórum, os redutos mais cotados atualmente são do Iguatemi Businness Flat, avaliado como discreto e limpinho, e do Bompreço do Chame-Chame, onde “rola de tudo na madrugada”, </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">segundo os freqüentadores.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><strong><span style="font-family:&quot;">Aproveitadores de escada</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Investigadores do cacete alheio fazem parte de um segmento voyeurístico cujo correspondente </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">feminino engloba os aproveitadores da escada. São aqueles pós-adolescentes que se reuniam no ângulo privilegiado do térreo da Faculdade de Comunicação da UFBA para averiguarem toda a semiótica contida na minissaia de uma caloura indo para a aula no segundo andar. Ou no Salvador Shopping, onde as escadas translúcidas parecem ideias para esse tipo de observação. Dentro do vestiário esportivo de um clube no Costa Azul, outro dia, um nadador desautorizou o instrutor de tênis a usar o chuveiro no box ao lado. “Amigo, não ligue esse aí não porque vai deixar a água fraca aqui”. Seria um simples aviso de alguém que não quisesse ser prejudicado em uma ducha quente. Bastou um complemento de frase para revelar-se mais do que alguém tentando livrar-se dos odores de uma sessão de treinos ou do cloro impregnado no cabelo. “Você pode usar esse chuveiro aqui da frente”. Na visão do instrutor, o candidato a atleta queria </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">que ele fosse para o vestíbulo bem na frente dele, onde oferecesse uma visão completa do material. “Eu maldei logo que era viado”. Poderia ser o caso não de homossexualismo, mas de um fiscôla aflorando. Magari é o apelido de um fiscôla assumido na cidade de Nazaré das Farinhas. Não se identifica para não atrapalhar o trabalho em uma empreiteira, onde já chegou a reunir mil homens em uma obra (“e só três mulheres, eu era uma delas”, diverte-se). Ele se sentia como se estivesse em uma Disney da fiscôlagem, quando boa parte ia para o vestiário </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">em fim de expediente. Aí, fiscôlava em alta.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Percebia que alguns fitavam a cintura alheia com uma boa dose de interesse disfarçado. Depois, ia investigar e descobria que o cidadão era bem casado, pai de filhos. “Esses são os curiosos”.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">A diferença dele para a maioria dos fiscôlas é que é bicha declarada, embora tenha </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">uma ética própria no trato com os relacionamentos. “Mais vale uma amizade na mão </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">do que uma penetração”. Ele é uma espécie de fiscôla ideológico, um xiita em termos </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">de voyeurismo peniano.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Uma intervenção entrou para a antologia da crônica esportiva na Bahia. Um fotógrafo </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">contemporâneo, depois representante de associação de classe, aguardava o final das partidas </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">como o momento mais sublime do que o gol. Era a hora de ir para o vestiário da equipe </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">vencedora, ver todos aqueles atletas de alma e prepúcios lavados, a pretexto de finalizar o </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">trabalho, como se fosse do interesse público fotografar o vestiário.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">O fiscôla, não com esse nome, é uma entidade que ganhou a internet por um vídeo </span></span><span style="font-size:small;"><span style="font-family:&quot;">de uma apresentação de </span><em><span style="font-family:&quot;">stand up comedy </span></em><span style="font-family:&quot;">do pernambucano Murilo Gun. Na esquete </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">sobre os constrangimentos em um banheiro masculino, ele conta a dificuldade de lidar </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">com os vizinhos de mictório sem ser considerado “fiscal de rola”. Nesse momento, </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">a platéia delira com a lembrança. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://correlatos.wordpress.com/2011/02/07/profissao-fiscola/"><img src="http://img.youtube.com/vi/3_lQCgIX4hs/2.jpg" alt="" /></a></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Um fiscôla de camisa regata entra no banheiro do Iguatemi seguido por um rapaz com gel no cabelo em formato moicano. Há mictórios livres, mas os dois se posicionam lado-a-lado. Fica olhando de baixo pra cima em diagonal e depois passa a olhar </span></span><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">desconfiado para trás, procurando perceber se alguém está espionando. Sim, ele está sendo observado em seu ato de observar, mas até com certa piedade.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">Sim, porque alguns momentos, eu tive que me tornar fiscôla, por isso uma certa solidariedade aos meus pares. De tanto entrar em banheiro, terminei confundido com um dos que seriam investigados. O diálogo absolutamente surrealista foi inevitável com um segurança na porta do WC do Iguatemi:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Senhor, por gentileza&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Não é bem o que você está pensando, eu&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Senhor, eu não sou pago pra pensar, apenas preciso limpar a barra. Há lugares próprios pra isso.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Mas eu tô fazendo um trabalho&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Tudo bem, o senhor pode considerar trabalho e tal, mas já é a quarta vez que o senhor entra aqui em 20 minutos. Aí já é trabalhar demais.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Não, meu velho, é uma reportagem, você pode, inclusive, me ajudar com ela.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Não, muito obrigado. Prefiro ficar de fora.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- A reportagem é sobre fiscôlas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Fiz o quê?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Fiscôla, fiscal de rola, que vai pro banheiro público olhar o pau dos outros.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">- Ah, sim. Hummm&#8230; o senhor tem certeza que está feliz com isso?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">E com essa dúvida a reportagem termina, não sem antes um comentário de ordem da higiene pessoal. Impressionante é perceber que pelo menos metade – eu reitero, metade – dos caras que saem do banheiro público passa direto pela pia, como se a torneira fosse tóxica. Quer dizer que de cada 10 usuários, cinco vertem água sem lavar as mãos depois. E eu tenho certeza que pelo menos um destes já lhe deu um cumprimento de mão bem apertado depois de manusear o pau. Mas isso já é uma outra história.</span></span> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><em>*publicada em junho de 2008, na Revista Metrópole</em></p>
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		<title>Leitura de fácil digestão</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jan 2011 15:34:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grande Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Frases espalhadas em banheiros públicos refletem imaginário coletivo Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Se vendado estivesse – sendo conduzido por alguma mão amiga naqueles passos tímidos e curtos de quem não conhece o caminho -, logo saberia se tratar de um banheiro público, pelo cheiro ácido de mijo seco, pelo som metálico da porta batendo e pelo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=155&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Frases espalhadas em banheiros públicos refletem imaginário coletivo </em></p>
<p>Pablo Reis (<a href="mailto:pabloreis@gmail.com">pabloreis@gmail.com</a>)</p>
<p>Se vendado estivesse – sendo conduzido por alguma mão amiga naqueles passos tímidos e curtos de quem não conhece o caminho -, logo saberia se tratar de um banheiro público, pelo cheiro ácido de mijo seco, pelo som metálico da porta batendo e pelo eco que capta e reverbera até a respiração suspensa de quem contrai o abdomem para conter a sensação de facada diagonal de sentir apuros digestivos. Mas se estivesse vendado provavelmente perderia mais do que a noção de direção para alcançar o vaso sanitário. Perderia o melhor da decoração visual que faz o público de um banheiro: as frases sem preocupação com o politicamente correto, despidas de pudores e geralmente escritas depois daquele ahhhh aliviado de quem não via a hora de arriar as calças. “Comer mulher feia e cagar, todo mundo faz, mas ninguém faz questão de comentar”. É o melhor da leitura de fácil digestão.</p>
<p>Esta reportagem é uma espécie de ode ao aparelho excretor, uma peregrinação por lugares malcheirosos, que podem ser verdadeiros mictórios literários ou simplesmente murais improvisados para ofensas, denúncias, auto-elogios, todo o tipo de liberdade. Senta que lá vem a história. No Empório Arvoredo do Imbuí, a frase no biombo masculino é um exemplo de marketing pessoal no lugar errado: “George Ramiro é gostoso”. Na mesma porta de madeira escura e pesada, o Paulista se apresenta como um garanhão de coração volúvel. A poucos centímetros de distância, os escritos dão conta de que ele “come Silvia”, “come Silvana”, “come Patrícia”, e ali adiante, “come Maria&#8230; mas agora outro come Maria”.</p>
<p>Porta de banheiro é uma espécie de horário eleitoral gratuito sem censura, onde você pode emitir qualquer idéia sem depois ser cobrado por isso. Há os cúmulos de vaidade, as agressões, os lapsos de filosofia barata, os discursos tão pretensiosos quanto vazios. Ou seja, tudo que existe em uma campanha política, só que sem a necessidade de conquistar eleitores. Quem escreve no banheiro está bem pouco preocupado com a rejeição alheia. É possível encontrar alguma contribuição expressa em exagero anatômico mas que, ironicamente, prefere deixar tudo em estilo abreviado: “Meu K7 tem 30 cm”.</p>
<p><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/01/banheiros1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-158" title="banheiros1" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/01/banheiros1.jpg?w=300&#038;h=237" alt="" width="300" height="237" /></a>Há o verso clássico, hino dos decifradores do lirismo de latrina: &#8220;sentado na privada, sinto uma emoção profunda, a bosta bate na água e a água bate na bunda.&#8221; Ou a frase atribuída a algum banheiro da USP: &#8220;A diferença entre cagar e dar o cu é meramente vetorial.&#8221; A odisséia frasista ganha o rumo acadêmico do campus de Ondina da Universidade Federal da Bahia. No edifício que abriga a Biblioteca Central, cada andar tem banheiros masculinos e femininos e as portas brancas de fórmica são como lousas para o espírito lúbrico de universitários com excesso de hormônios. “Quero um broder malhadinho, gostoso, bonito, super ativo e com um pau bem grosso”&#8230; Até aí seria um pedido legítimo de pelo menos metade das solteiras do Yacht Club que ainda se animam com a perspectiva de um casamento duradouro, desde que no lugar da palavra “broder” estivesse escrito “marido”. Só que a continuação é bem mais comprometedora: “Sou bonito, gostoso, malhado (corpo bem-definido de surfista). Deixa algum recado aí véi”. O apelo de uma alma gêmea com tantos predicados motivou uma resposta escrita em hidrográfica mais escura, com o azul marinho contundente de uma réplica mordaz: “Pq não aluga um filme pornô? Não acha que ta pedindo muito não? Sonha, Alice! Ha ha ha”</p>
<p>Há um jogo democrático em que é liberado o espaço de acordo com a necessidade de quem escreve e não por alguma convenção de princípios e moralidade. “Deus é amor ! Ame e terás Deus no coração! O pastor só quer acorrentar sua alma! Se você ama não precisa de mais nada” pode ser encontrado ao lado de “Dou o cu, chupo pica e como também. Tel: 8872-8253. Márcio” ou “21 cm de puro delírio: ricardo.20@hotmail.com”. É nesse sentido que a porta ou a parede de um banheiro podem se tornar uma espécie de divã vertical, que aceita qualquer tipo de desabafo ou confissão.</p>
<p>Por isso que em uma televisão fictícia algum mais indignado com o resultado do trabalho pode escrever que para ser repórter basta ser surdo, para ser cinegrafista pode ser cego e mudo será um editor, mas se for isso tudo ao mesmo tempo aí terá condição de ser chefe. No banheiro feminino da Biblioteca Central da UFBA, um mais ousado conseguiu entrar para registrar os anseios mais primitivos como se fosse uma página de classificados na seção Encontros: “Quero foder sua boceta e seu cuzinho bem gostoso. 8175-3985, tenho 22 cm. Passe p/ uma amiga que queira”. Ainda no banheiro do Pavilhão de Aulas da Federação (PAF1), o recado de um jovem em busca de companheiro, dizendo-se estudar no Instituto de Biologia, o qual foi rapidamente rasurado e corrigido por outro como Instituto de Boiologia.</p>
<p>Um artigo publicado por três estudantes da Unicamp é uma das primeiras ponderações acadêmicas sobre o assunto: Análise do Discurso dos Escritos dos Banheiros da Universidade. O estudo aponta os “escritos sugestivos do banheiro” como “um porta-voz de uma coletividade nem sempre escutada e em um local de livre expressão de um grupo social muitas vezes submetido a um silêncio forçado.”</p>
<p>Alguns diálogos inteiros, redigidos com atraso de alguns dias, são capazes de entreter portador de prisão de ventre. É sempre uma sucessão de desencontros, como os exibidos no meloso filme A Casa do Lago, só que sem protagonistas tão charmosos como Sandra Bullock e Keanu Reeves.</p>
<p>Dia 14/04/2008 – estou aqui toda segunda e quarta. Passo por aqui sempre às 17h30. Se quiser, basta bater na porta 2 vezes. Sou versátil. Gustavo</p>
<p>Dia 28/04/2008, 17h40 – estive aqui e você não estava.</p>
<p>Dia 18/06/2008 – você é mentiroso!!!</p>
<p>Dia 19/06/2008 – Semana que vem eu volto!! Você chupou meu cacete como uma puta! Safado gostoso</p>
<p>Dia 23/06/2008 – E KD você agora? Tow aqui e vc não ta!! É melhor vc deixar seu cel quando estiver aqui. Eu dou toque pro seu cel aí você vem pra cá.</p>
<p>O artigo dos estudantes da Unicamp retrata essa característica: “O texto nas portas de banheiros possui em sua especial estrutura elementos próprios de uma configuração macroestrutural, tais como as pressuposições, as correferências, os tópicos de discurso, ligados ao marco, e os conectores e outros elementos ligados à coesão textual.” Da análise, é possível tirar pelo menos duas conclusões: a primeira é que deve ter algo de sociologicamente muito importante em deixar registros no banheiro, já que o tema é capaz de motivar uma tese tão cheia de pompa; a segunda é que uma frase dessas jamais seria capaz de substituir o entendimento rápido, direto e mordaz de algo como “puxe a descarga com força, há um longo caminho daqui até o Congresso”.</p>
<p>As letras mais usadas por quem precisa fazer o número dois não precisam obedecer a estética, ortografia ou bom comportamento. Um aviso se destaca como uma placa maiúscula e inútil no meio do caos de frases manuscritas em caligrafias nervosas e tintas opacas. ATENÇÃO! É TERMINANTEMENTE PROIBIDO ESCREVER NESTA PORTA! E ao lado, já com uma caneta clara, mas igualmente em caixa alta, a resposta de alguém que se sentiu aviltado no direito à livre expressão escatológica: VÁ SE FODER!</p>
<p>No Colégio Euricles Matos, no Rio Vermelho, como na maior parte das escolas públicas onde os diretores se queixam de apenas uma verba anual para manutenção e pintura, não apenas os banheiros são rabiscados. As paredes são completamente riscadas, os poucos móveis, os bebedouros, até o teto que de algum local onde o pé-direito possa ser alcançado. É lá no banheiro masculino que um romance é denunciado em toda a alegoria de sabores e imprevisibilidades: “Cereja x Chocolate, amor a 2ª vista”. Grafites de lirismo em que cagar se torna um processo de higiene também mental “É quase impossível tentar conter ou censurar esse tipo de expressão”, conforma-se o diretor Alexandre de Freitas Batista, que garante nunca ter sido alvo de qualquer manifestação rabiscada embaixo do espelho ou em cima da latrina por algum dos 1800 alunos. Ou, pelo menos, nunca ficou sabendo.</p>
<p>No colégio Manoel Devoto, no Rio Vermelho, Magda Suelen, 16 anos, aluna do 1° ano do ensino médio, já viu todo tipo de mensagem, desde religiosas a ofensivas, como “Yala é galinha”. Ela mesma só contribuiu com expressões autopromocionais, como “Magda, a boa”, “Magda gostosa”, sem jamais ter se dado conta de que esse tipo de propaganda no banheiro feminino não iria alcançar seus objetivos.</p>
<p>Muita gente já precisou fazer uma cara de total espanto, como o radialista Ramon Margiolle, ao tomar conhecimento que havia a informação de que Ramon pega Bárbara estampada na madeira escura do banheiro masculino. E logo Bárbara, a garota que dava poucas esperanças de relacionamento a ele. E muita gente também fez como ele e não revelou ser o próprio autor da informação falsa.</p>
<p>Com a palavra, a interpretação asséptica e universitária sobre um fenômeno tipicamente anárquico: “No banheiro, é onde ocorre a transgressão, a ruptura, e as pessoas se libertam. Por isso, ele se torna um veículo de expressão pessoal, mural de garantida audiência para nossas acertadas e espirituosas observações sobre nós mesmos, sobre o mundo, sobre tudo. Território sujo e livre, que parece oferecer-nos segurança, anonimato, intimidade, o banheiro é um dos locais onde mais se produzem grafitos em nossa sociedade”.</p>
<p>Uma urinada não oferece o mesmo privilégio de dar a devida atenção a imperativos de tamanha sutileza: “Os Bete no comando, quem ñ gostou dê o cu”. E depois o aviso como se ali fosse escrito não com um simples hidrocor, mas com o próprio sangue: apaga agora filhos da puta!!! No banheiro rosa do Colégio Manoel Devoto, no Rio Vermelho, um recado isolado na parede: Erivelton é gostoso, Ass: 102.</p>
<p>No banheiro azul, registrado na descarga, um “Jesus te ama”. Não estava em algum WC do instituto de Letras da Ufba, por sinal de paredes e portas virginais em termos de escritos, mas no poema Frases ao acaso, de Luciana de Rocio Mallon: “As frases de banheiro mostram a realidade/ Do nosso mundo imundo de verdade!/ As livres frases ao acaso/ Sempre têm um caso&#8230;” e é assim, juntando o acaso de quem escreve com o fortuito de quem lê, que se cria uma antologia própria, até que o próximo leitor em apuros intestinais tenha tempo suficiente para analisar toda a semiótica de quem grafita enquanto caga. Porque ninguém chega a um banheiro de olhos vendados, principalmente o curioso por conhecer toda a filosofia de (quem larga um) barro.</p>
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		<title>Páginas viradas</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jan 2011 15:11:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grande Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Amores eternos são entregues às traças nas dedicatórias que enchem folhas de rosto de livros nos sebos Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Era uma tarde de verão baiano quando Octávio experimentou um jeito próprio de exprimir um sentimento infinito de querer bem, a devoção e dependência orgânica que é estar apaixonado. Pegou um livro de Vinícius de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=148&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Amores eternos são entregues às traças nas dedicatórias que enchem folhas de rosto de livros nos sebos</em></p>
<p><strong>Pablo Reis (<a href="mailto:pabloreis@gmail.com">pabloreis@gmail.com</a>)</strong></p>
<p>Era uma tarde de verão baiano quando Octávio experimentou um jeito próprio de exprimir um sentimento infinito de querer bem, a devoção e dependência orgânica que é estar apaixonado. Pegou um livro de Vinícius de Moraes e escreveu no topo da segunda página, com uma letra sobrescrita, a sua versão do “infinito enquanto dure”.  No volume com versos inflamados, como O Mais-que-perfeito, (“Ah, quem me dera ver-te/ Sempre a meu lado/ Sem precisar dizer-te/ Jamais: cuidado/ Ah, quem me dera ver-te”), o título definitivo: <em>Para Viver um Grande Amor</em>.</p>
<p>Na folha de rosto, com a convulsão emotiva dos febris, o amador completou o título com sua dedicatória: “&#8230; e continuar vivendo, eu só preciso de você. Não quero ficar sem o meu grande amor (você). Te amo, Octávio, 30/01/88”. Vinte anos depois, provavelmente sem o grande amor, e talvez enchendo outras páginas com o ardor do coração, o legado de Octávio repousa, sem dono, em uma das prateleiras do sebo Brandão, o maior de Salvador, no Centro Histórico da capital. Está acompanhado por milhares de outras declarações perdidas em corredores que são uma ode ao pretérito. Livros, livros à mancheia, como tijolos de um castelo em homenagem a amores que ficaram para trás.  </p>
<div id="attachment_150" class="wp-caption alignright" style="width: 397px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/01/livros1.jpg"><img class="size-full wp-image-150" title="livros1" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/01/livros1.jpg?w=600" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">“Para minha amiga e mestre, que você ‘encine’ por muitos e muitos anos”</p></div>
<p>Octávio é real, não é daqueles nomes fictícios inventados por repórteres que têm um lead utópico na cabeça mas não o personagem ideal para preenchê-lo. Mais que um nome a caneta esferográfica, ele representa o anti-herói romântico contra o dragão da insensibilidade. Aquele livro de brochura manchada e carcomida significa a página virada na vida de alguém. Há um pouco de comédia, ironia e melancolia nessas demonstrações de afeto que são entregues às traças.</p>
<p>Décadas de espera por alguém que mereça ter nas mãos um volume impregnado de paixões: o livro <em>Amo!</em> (assim mesmo, quase um imperativo), coletânea de poesias assinadas por JG de Araújo Jorge. “A EP, para que você possa conhecer e deleitar-se com a poesia de Araújo Jorge, um poeta que deve ter empolgado muita gente tanto quanto empolgou essa sua Eva. Bahia, 3 de julho de 1949”.</p>
<p>Letras redondas, letras pontudas, frases ventias, paixões agudas. Tanta dedicação que vai parar num sebo, à disposição de qualquer um que queira pagar 15 reais. <em>Ecologia, a Ciência da Sobrevivência</em>, de Lawrence Pringle, editado pela Biblioteca do Exército Editora, presenteado por um avô, se destaca não apenas pela dedicatória curta: “Para minha neta ‘n°1’, também conhecida como Silien Álvares Coelho, com carinho do vô, SP, dezembro de 1977”. O inusitado são os retalhos de textos largados ao longo do volume, como se fossem pistas para encontrar um coelhinho da Páscoa. São notas de rodapé, com detalhes de etimologia ou referências. Onde está escrito a palavra <em>apêndice</em>, o avô grifa de caneta, faz uma seta e leva até o canto da página para explicar: “parte anexa a uma obra, acessória à obra (do latim, appendix)”. Parece um discurso de um avô e possivelmente biólogo para já deixar um legado de preservação para a neta com duas décadas de antecedência ao assunto se tornar item da cartilha do politicamente correto.</p>
<p>Autoria desmerecida</p>
<p>Um capítulo de constrangimentos à parte é oferecido pelos autógrafos de escritores que são desprezados no primeiro caminhão de mudanças. Na orelha de <em>O Gozo das Feiticeiras</em>, livro classificado como de bruxaria, com capítulos do tipo Amuletos de Poder, Amores Mágicos, o reconhecimento de que “Márcia Frazão se entrega inteira ao prazer de contar suas experiências compartilhadas com a avó Vitalina, que a iniciou no suave caminho de amor pela natureza.” Mesmo ela sendo bruxa não poderia prever que o bibelô para Vânia, com a frase “que bom que você existe, mil beijos”, cairia no caldeirão de rejeitados.</p>
<p><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/01/livros2.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-151" title="livros2" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2011/01/livros2.jpg?w=300&#038;h=200" alt="" width="300" height="200" /></a>Há situações datadas, como “Beto, nossa URV está cotada num tempo que não existe. No presente, chama-se cortesia. Me conheça me lendo, um abraço. Carlos Alberto. “ O signatário é o mesmo C.A. Pacheco, autor do livro de poesias <em>Como o Diabo Gosta</em>. A data do presente é que não inspira muita certeza: 1° de abril de 1994.</p>
<p>O jornalista Paolo Marconi, atualmente conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, já foi surpreendido com o descarte de uma obra sua. Autografou o livro <em>Censura Política na Imprensa Brasileira &#8211; de 1968 a 1978</em> para um colega também jornalista e quatro ou cinco anos depois encontrou o material no sebo. “Não dei muita importância. Vai ver o cara estava precisando de dinheiro ou então não deu o devido valor”, minimiza Marconi, que, elegantemente, não cita o nome do presenteado e nem se ele se tornou um ex-amigo.</p>
<p>Para não vivenciar situações semelhantes, o jornalista Elio Gaspari justificou recusar sessões de autógrafos para os quatro volumes lançados sobre a ditadura afirmando que não gostaria ver exemplares com sua assinatura por sebos.</p>
<p>Escrever um livro, publicar, ser elogiado pelo trabalho. A essa sucessão de glórias poderia ser adicionada a etapa da decadência: ser jogado na vala comum dos desprezados, enterrado em vida como mais um ocupante nas prateleiras dos proscritos.  <em>Anatomia do Ódio</em> é o título do livro escrito pelo bacharel em Direito, deputado federal constituinte, relator do Código de Defesa do Consumidor, Joaci Góes. Uma obra descrita como “o mais completo ensaio sobre esse inquietante tema”, tratado pelo psicólogo cubano Mira y López como “o gigante rubro”. Ele autografa o livro “ao eminente amigo Ursicino Queiroz, com as homenagens, os agradecimentos e o eterno abraço de Joaci Góes, Salvador, 15 de setembro de 2002”. Sabe-se que Ursicino, ex-prefeito de Santo Antônio de Jesus, ex-deputado federal e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, faleceu no ano passado. É um caso que parece pacífico admitir que a família, sem qualquer ligação emocional com a dedicatória, resolve se desfazer do livro, como se fora uma camisa manchada, de gola esgarçada, que pode servir melhor a alguém que se contente com a segunda mão.</p>
<p>Cemitério de sentimentos</p>
<p>De alguma forma, os sebos são cemitérios de sentimentos e as páginas amareladas da quarta capa são sepulturas de amizades, romances, intimidades. Algumas amizades viram caricatura como a que foi lembrada no livro <em>Sucessão – Charges no Jornal do Brasil</em>, oferecido com toda a formalidade de uma caligrafia cursiva “ao amigo Rafael, com os cumprimentos de Paulo Marques”.</p>
<p>Uma edição de <em>O Diabo Veste Prada</em>, o livro escrito por Lauren Weisberg, que originou o filme, tem o agradecimento pela reconciliação familiar. “Que bom que você veio passar este natal comigo, que para mãe não tem presente melhor do que a presença de uma filha querida! Melhor ainda, as três filhas juntas! Mãe, 25 de dezembro de 2006” Ao que parece, a emoção materna não chegou a sensibilizar por muito tempo. Menos de dois anos depois estava como destaque na prateleira principal de promoções.</p>
<p>Tomás de Aquino Queiroz dedicou os últimos 15 anos ao trabalho diligente de recolher edições antigas, pagar por elas, vender ou alugar para leitores. No Cantinho do Sebo, na Pituba, ele abona uma espécie de locação mensal, ao custo de R$30, que dá direito a pegar quantos livros quiser.  Não estabelece qualquer tipo de valor diferencial a exemplares com dedicatórias.  Clientes buscam livros com autógrafos dos autores, principalmente Jorge Amado, só que mesmo que eles estivessem nas prateleiras Tomás garante que os preços não seriam aumentados, continuariam entre 15 e 20 reais, independentemente da escrita do ídolo. “Procuramos não nos envolver com essas coisas emocionais”, justifica Tomás de Aquino. “Tem sebo que ainda dá mais valor se tiver dedicatória, o que eu acho uma coisa meio doentia”, desanca o jornalista Paolo Marconi.</p>
<p>Para a psicóloga Graziela Aguiar, o descarte do objeto é resultado do desgaste de uma relação ou da necessidade de distanciamento de alguém. “O afastamento proposital faz com que os sentidos da relação se percam ou saíam da memória aparente. Mas isso não significa que entrar em contato com o objeto (no caso, o livro) não vai provocar a recordação de várias cenas associadas àquele significante”, explica ela, mostrando como a venda daquele volume presenteado especialmente no Dia dos Namorados pode ser uma auto-defesa.</p>
<p>Palimpsestos de afeições</p>
<p>Nas prateleiras do sebo mais famoso de Salvador, uns 20 mil volumes expostos são como afrodisíacos visuais para amantes de literatura e nostalgia. E chegam a ser poucos em comparação com as fotos de galpões da empresa que abrigam quase 200 mil obras, exibidas pelo dono Eurico Brandão. De cada 10 livros, pelo menos dois apresentam alguma dedicatória personalizada, embora o funcionário Batista, com quase 20 anos trabalhando naquela necrópole de emoções, confesse que os mais precavidos pedem para que os textos caligrafados sejam apagados dos livros, como se fossem palimpsestos de afeições. Eles nunca cumprem esses pedidos com uma óbvia justificativa de que quem realmente deseja isso pode arrancar a página ou apagar por si só. Há também outra razão: a depender de quem assina, um simples exemplar de guia de receitas pode valer tanto quanto uma bíblia medieval. É o caso de um lote inteiro de livros que pertenceram ao ex-governador Luiz Vianna Filho que acaba de ser vendido para um comprador tão feliz que só se deu conta que havia esquecido seis exemplares da lista, quando já estava no carro.</p>
<p>Só que ali nem todos ficariam contentes. Por exemplo, o que sentiria a poeta Regina Espinheira ao tomar conhecimento de que a obra <em>Contando Estrelas – e outras poesias</em>, dedicada “para a adorável Ingrid, com afeto cordial”, foi parar na prateleira 140/5 do sebo?</p>
<p>No site Mercado Livre, uma edição de poesias de um certo Jules Supervielle, intitulada <em>Gravitations</em>, de 1966, custa 225 reais, um valor pelo menos o dobro do que seria a coletânea em algum sebo. A inflação é determinada por oito palavras riscadas na quarta capa: “Ao Manuel, do velho Di Cavalcanti. Paris. 1966”. É creditado como um presente do famoso artista plástico ao amigo Manuel Bandeira.</p>
<p>O fascínio das frases soltas ao bem querer de quem folheia um livro já inspirou o curta-metragem Dedicatórias, de 1997, de Eduardo Vaisman. Depois da morte do marido, a personagem de Zezé Polessa passa a extravasar o romantismo recolhido pelas linhas caligrafadas em contracapa comprando livros usados no sebo para colecionar as dedicatórias e comparar com o número de palavras do recado de cinco palavras deixado pelo finado Octávio. “Setenta palavras, ai que lindo”, suspira ao encontrar uma declaração um pouco mais robusta.</p>
<p>Emoções carcomidas</p>
<p>Muitos sugerem que a página seja rasgada ou a mensagem apagada. Mas nada garante que a curiosidade vai ficar menos aguçada. O que teria ficado oculto pelo Liquid Paper cuidadosamente passado naquelas quatro linhas de dedicatória do livro <em>Lendo no Escuro</em>, de Seamus Deane, sobre um garoto que passa para a fase adulta na conturbada Irlanda dos anos 40 e 50, dentro de uma família numerosa, cheio de medos?</p>
<p>Raros são os livros sem as digitais de uma personalização, sem uma dedicatória, um nome de propriedade. Na seção de eróticos do sebo Brandão, jaz o romance <em>Escritora Maldita?</em>, que a partir do dia 7 de junho de 1989 passou a pertencer à “jovem Guel”, com um aviso cândido incompatível com as tórridas descrições das páginas seguintes: “emprestar é um prazer, ter cuidado é um dever, portanto, se você não tem, não insista”.</p>
<p>Uma ironia de matar é receber o livro <em>Histórias de Morte</em>, autografado pelo próprio autor: “à Lúcia e Sandra, com a consideração, o apreço e o abraço de Paulo de Tarso, 2/10/05”. Ou o apreço já não era mais tão vivo assim, ou o texto era mesmo de morrer.</p>
<p>Há incongruências de estilo, uma espécie de gafe em termos de presente. Como dar um livro de Sidney Sheldon chamado <em>Nada Dura para Sempre</em> a alguém que, enfim, conseguiu se empregar: “Maggy, tenho muita certeza que terá muito sucesso no novo emprego. Deus que lhe ajude, 29/10/94”. O exemplar foi parar no sebo, o melhor sinal de que a amizade ou o contrato de trabalho não foram definitivos.</p>
<p>O estudante Cledson A. Cruz presenteou uma professora com o livro <em>O Falso Traidor</em> – história real do espião dos Aliados que simula converter-se ao nazismo e carimbou a dedicatória: “Para minha amiga e mestre que voçê (sic) encine (sic) por muitos e muitos anos. I Love you teacher”. Aparentemente, uma professora de inglês, porque se fosse de português o próprio resultado do trabalho pedagógico estaria colocado em xeque depois de uma mensagem como essa.</p>
<p>Do mesmo jeito, o analista de sistemas, leitor compulsivo e agnóstico Marco Aurélio dos Santos registra no blog Jesus, me chicoteia (www.jesusmechicoteia.com.br) a montanha-russa de emoções que é fazer compras em sebos. “Um dia uma pessoa comprou o livro, escreveu uma dedicatória e o deu de presente para alguém que tinha algum significado. O destinatário não gostou do livro, ou o perdeu, ou lhe roubaram o volume, ou morreu e, passando de mão em mão, o livro foi parar num sebo, com sua dedicatória totalmente despida de sentido e calor”.</p>
<p>Nos livros, afetos parecem envelhecer ou morrer, como se seguissem um curso natural de desgaste: “Vó, espero que este livro possa lhe proporcionar momentos de reflexão, tranqüilidade e pez. Beijos da neta, afilhada, amiga e filha, Pati”, é o que está registrado na segunda página de <em>O Sucesso é Ser Feliz</em>, de Roberto Shinyashiki.</p>
<p>Solidariedade e pena por quem escreveu aquilo. O elogio, a declaração de amor ficam de domínio público, não têm dono, nem destinatário. Largar um livro de dedicatória ao destino incerto de um sebo, enfim, é uma espécie de adultério compartilhado. Que essa reportagem faça justiça a Octávio, o anti-herói que merece ser vingado em sua traição literária. E você? Sabe onde pode estar agora aquele livro que dedicou com tanto carinho a uma pessoa que ama?</p>
<p><strong>*produzida em agosto de 2008</strong></p>
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		<title>O meu destino é ser star</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 15:02:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfil]]></category>

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		<description><![CDATA[Gildete dos Santos, “60 e alguns anos”, não perde uma chance de dar entrevista e contabiliza mais de 300 aparições na mídia Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Dona Gildete dos Santos, uma avó de quatro netas, acabou de passar por uma humilhação pública perante centenas de pessoas no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, e diante de milhares [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=143&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Gildete dos Santos, “60 e alguns anos”, não perde uma chance de dar entrevista e contabiliza mais de 300 aparições na mídia</em></p>
<p><strong>Pablo Reis</strong> (<a href="mailto:pabloreis@gmail.com">pabloreis@gmail.com</a>)</p>
<p>Dona Gildete dos Santos, uma avó de quatro netas, acabou de passar por uma humilhação pública perante centenas de pessoas no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, e diante de milhares na televisão, mas está curtindo muito tudo isso. Torcedora fanática, ela foi fazer uma recepção crítica ao time do Vitória, depois de uma derrota por 6&#215;0 do Brasiliense, e terminou virando alvo de chacota do ex-preparador físico Wellington Vero. Dona Gildete rememora os detalhes do episódio com a riqueza narrativa de um Tolstói e a carga dramática de um Rubem Fonseca.</p>
<div id="attachment_144" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/08/gildete2.jpg"><img class="size-medium wp-image-144" title="Gildete2" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/08/gildete2.jpg?w=300&#038;h=199" alt="" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Dona Gildete rejeita o título de papagaio de pirata</p></div>
<p>Vinham no desembarque primeiro os jogadores, macambúzios, e logo na frente o atacante Índio, que é sempre artilheiro e amado, mas não conseguiu encarar olho no olho a vovó rubro-negra na hora de ouvir: “rapaz, quando jogam aqui, ganham, mas lá fora tremem igual a geléia”. Ele abaixou a cabeça e seguiu adiante, encabulado. Lá atrás, chegava o técnico Givanildo Oliveira, cara mais enfezada do que de costume: “Givanildo, por favor, vê se come um acarajé com pimenta e muda esse seu jeito”. </p>
<p>O treinador partiu reto, mas contou com a defesa do “despreparador físico” – no vocabulário ofendido de dona Gildete -, que se adiantou em frente às câmeras, numa reação que precipitaria sua própria demissão. “E a senhora deveria estar em casa cozinhando seu feijão”. Ela revidou com um “respeite meu Vitória, que tem nome, porra” e saiu dali como heroína, recebendo até convites de advogados que adorariam ganhar uma causa por acusação de preconceito de gênero e idade.</p>
<p>Gildete, uma conhecida alpinista de manchetes há mais de 10 anos em Salvador, conseguiu sair de coadjuvante nas reportagens, onde faz pontas como entrevistada no meio da rua, para assunto principal de uma notícia. Mesmo humilhada, ela está feliz – e como está feliz. “Ahhhhh, meu filho”, suspira ela, com um largo sorriso, “esse feijão já rendeu tanto”. Em seguida, começa a falar das centenas de telefonemas que recebeu, das pessoas que a reconhecem nas ruas, de como foi considerada uma espécie de mártir entre os insatisfeitos torcedores do Vitória.</p>
<p>E se houver alguma dúvida sobre o que dona Gildete realmente busca em termos de popularidade daqui a pouco vai ser dissipada, quando ela revelar que acorda sempre às 3h30 para participar ao vivo de um programa na Rádio Sociedade da Bahia, toda madrugada. Ela dorme muito pouco, geralmente deita às 23h e umas quatro horas depois já está de pé, fazendo um cafezinho, ou zapeando pela televisão. Quer ter mais tempo para viver, em outras palavras, um pouco mais de nome em evidência na televisão, no jornal ou no rádio, em sua saga multimídia.</p>
<p>Papagaio de pirata</p>
<p>Cada estado tem o aproveitador de mídia que merece. O beijoqueiro já virou símbolo nacional, mas em qualquer lugar do Brasil um papagaio-de-pirata está sempre disposto a achar um cantinho de imagem para aparecer no telejornal da noite. E, quando identificados, eles geralmente passam a ser saudados como celebridades às avessas, personagens exóticos da sociedade em que um dos dogmas principais é saber prolongar ao máximo os 15 minutos de fama de Andy Warhol.</p>
<p>Só dona Gildete, que na incompreensão dos profissionais baianos, terminou se tornando uma figura a ser evitada, como se portasse a contagiosa doença do estrelismo em excesso. Mesmo assim, ela calcula em umas 300 aparições na telinha ou no papel.</p>
<p>Certa vez, uma editora de telejornal de importante emissora baiana aproveitou a proximidade de uma data cívica para fazer um alerta, meio em tom de picardia, meio falando sério. Ela pediu para imprimir a foto da dona Gildete e colou em todas as ilhas de edição como uma recomendação ao contrário, algo do tipo “procura-se para não usar”, ou proibido estacionar em alguma imagem.</p>
<p>Nas últimas semanas antes do incidente futebolístico, Gildete participou de um programa popular na televisão no horário do almoço, no meio do povo que se aglomera para falar ao vivo. Depois de se escalar praticamente todos os dias e tentar ser mostrada em dois programas da mesma emissora num só dia, o pessoal a convidou, gentilmente, para “dar um tempo na própria imagem”. “Eu sei que não pode ficar aparecendo toda hora, porque fica muito manjado”, reconhece ela, que emenda assuntos de forma pródiga, sem dar tempo ao interlocutor, e usa gestos largos, como se estivesse num debate de candidatos a presidente dos EUA.</p>
<p>Na cobertura de Dois de Julho e Sete de Setembro (as especialidades dela), equipes de reportagem podem sair com recomendações expressas na pauta para tomarem cuidado: dona Gildete vai estar à espreita, rondando despretensiosamente o plano da câmera, pronta para oferecer um gran finale àquela matéria. Ela também não costuma perder um jogo do Vitória (a não ser quando é noite no Barradão e as filhas não permitem) e um Bavi na Fonte Nova. Além da roupa tradicional, leva galhos de arruda e alho, produzindo a imagem necessária para a indicação do misticismo, uma síntese visual daquela máxima de que, se macumba ganhasse jogo, campeonato baiano terminaria empatado. Definitivamente, dona Gildete sabe o que a mídia precisa.</p>
<p>Celebridade do bairro</p>
<p>A seu modo, Gildete é uma celebridade no bairro de Massaranduba, onde mora sozinha (“e com Deus”). É chamada de prefeita porque tem acesso para reclamar de uma tubulação de esgoto mal feita, ou de um buraco, e a ressonância que faz na imprensa logo dá resultado. Já se acostumou com os vizinhos fazendo chacota, dizendo em tom de pilhéria que ela paga aos jornalistas para estar sempre numa pontinha. Simplesmente responde que, se querem aparecer na televisão, que vão para a rua, saiam de casa e aprimorem o faro para as notícias. A filha Leda tem medo de que com tanta exposição ela seja vítima de seqüestro. “Você não sabe os riscos que correm uma pessoa que aparece na mídia”.</p>
<p>A principal atividade de dona Gildete sem dúvida é perseguir câmeras e microfones em busca de instantes de reconhecimento público. Profissionalmente, ela trabalha como auxiliar de enfermagem do posto de saúde em Massaranduba (de segunda a sexta, pela manhã), apesar de muitos acharem que sua onipresença na mídia é obra de aposentada. Também integra o grupo da terceira idade da ONG Mais Social, que se reúne para malhar no Parque da Cidade àne para malhar no Parque da Cidade  ar de enfermagem do posto de sastivesse em um ps quartas, e toma aula de dança no antigo Cine Brasil. </p>
<p>A especialidade de dona Gildete é vestir a camisa do Brasil e colocar adereços em verde-e-amarelo ao máximo que o corpo de vovó possa suportar. É com esse visual que ela fica facilmente identificável para repórteres, principalmente os calouros no assunto dona Gildete, que enxergam ali uma fonte atraente e – quem sabe – inédita. Mas para curtir a seresta ela veste uma roupa mais sóbria, tem desconfiança de que sua fantasia ufanista não possa afastar os paqueras que fazem fila para cortejá-la no evento de toda sexta-feira. A essa altura da vida, está em ritmo de festa. “Os meus netos, eu dou uma olhadinha e depois fui”, avisa logo. A posição de independência é logo compartilhada pela amiga Marta, de 63 anos. “Ficar criando neto? Isso não me pertence”, desdenha. </p>
<p>Nasceu na sergipana Estância e casou com um jogador de futebol do time local com 17 anos de idade. Mudou com a família para Salvador em 1963, tempo suficiente para se dizer baiana de coração. Na Bahia, começou a aventura por câmeras em meados da década de 90, justamente com o início do Pelourinho Dia e Noite. Descobriu que naquelas noites mornas em notícias no Centro Histórico era batata aparecer na reportagem se chegasse por lá toda fantasiada. Depois, migrou para os eventos da Sua Nota Vale um Show, na Concha Acústica. &#8220;No DVD de Adelmário Coelho, na hora da música Não Fale mal do meu país, aquela bandeira que aparece na platéia é minha&#8221;, vibra a sexagenária com espírito adolescente. &#8220;E você não sabe como vendeu aquele DVD&#8230;&#8221;.</p>
<p>Esta senhora de muitas aspas na imprensa garante que é amiga de todos os jornalistas para quem já falou ao microfone ou gravador. Só não ganhou mesmo os holofotes no último cortejo do Dois de Julho e recebeu até ligação saudosa do companheiro poeta José Galdino, da cidade de Alagoinhas:</p>
<p>- Gildete, senti sua falta lá na Praça Municipal&#8230;</p>
<p>- Pois é, meu filho, eu tive um problema intestinal&#8230;</p>
<p>Vê-se que só uma severa dor de barriga é capaz de esvair dessa musa a ânsia de brilhar.</p>
<p><em><strong>*produzido em agosto de 2007</strong></em></p>
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		<item>
		<title>O livro de dissabores de Sérgio Peixeiro</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 15:34:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfil]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele já viu a mãe ser assassinada, morou na rua e agora é micro-empresário; em 25 anos de vida tem biografia de sobra para contar Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) No box de n°50 da Feira Nova de Itapuã, tem um rei. Tudo bem que é um monarca daqueles que não possuem palácio (nem sequer uma casa [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=138&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Ele já viu a mãe ser assassinada, morou na rua e agora é micro-empresário; em 25 anos de vida tem biografia de sobra para contar</em></p>
<p><strong>Pablo Reis (</strong><a href="mailto:pabloreis@gmail.com"><strong>pabloreis@gmail.com</strong></a><strong>)</strong></p>
<p>No box de n°50 da Feira Nova de Itapuã, tem um rei. Tudo bem que é um monarca daqueles que não possuem palácio (nem sequer uma casa própria), muito menos uma carruagem para se locomover (e nem um carro). É um imperador sem súditos, cujo reino se resume a um espaço de 4m², onde mal consegue se mexer, cercado por freezers e isopor. Assim mesmo é rei, coroado na superação, entronizado no sofrimento, rei de seu próprio destino. O nome dele é Sérgio Conceição dos Santos, mas você, eu e todo mundo podemos chamá-lo de Sem Terra.</p>
<div id="attachment_140" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/08/peixeiro.jpg"><img class="size-medium wp-image-140" title="peixeiro" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/08/peixeiro.jpg?w=300&#038;h=206" alt="" width="300" height="206" /></a><p class="wp-caption-text">Imperador do box na feira, Sérgio sofreu para ser senhor de si</p></div>
<p>No seu local de trabalho, um clichê em forma de adesivo: falar de mim é fácil, difícil é ser como eu sou. É difícil ser como Sérgio Sem Terra, um jovem que viu, aos oito anos de idade, a mãe ser assassinada pelo padrasto, que precisou pagar ao pai biológico uma dívida como se fosse a própria alforria, que saiu do interior aos 14 anos, com dois pastéis no bolso e a roupa do corpo, que morou seis meses sob uma marquise em Água de Meninos, que não teve padrinho para o primeiro emprego, que descobriu como é difícil resistir à dor da fome sem roubar para comer. </p>
<p>Tem 25 anos de vida, mas parece muito mais: aparenta a idade do sofrimento. Sérgio quer escrever um livro contando sua biografia, mas acha que duas décadas e meia de história ainda é pouco para encher as páginas de emoção. Sérgio, o vendedor de marisco que prefere ser chamado de Sem Terra, quer escrever um livro.</p>
<p>Capítulo 1: Aipim</p>
<p>Sérgio é filho da permissividade. Do pai, teve 32 irmãos, da mãe, teve 17 irmãos, mas filhos do mesmo casal apenas ele e outro. Ainda criança, viu a mãe ser assassinada dentro de casa pelo padrasto, “toda pinicada de facão”. E só esse arrepio de lembrança já seria capaz de arrasar definitivamente a vida de um menino de 8 anos.</p>
<p>Morava com a mãe, que fabricava azeite, na zona rural de Nazaré das Farinhas. O padrasto estuprou uma enteada e dona Maria planejava denunciá-lo na polícia. Antes disso, foi perfurada a golpes de facão pelo companheiro, que depois colou uma espingarda de chumbo no próprio ouvido e apertou o gatilho do suicídio. Uma tarde que o menino não mais esqueceu.</p>
<p>Desse dia, rodou de casa em casa, entre os vizinhos, como agregado, jamais como filho, sempre um pobre coitado que se contentasse com as migalhas de uma família. Quando chegou na roça onde o pai morava, conheceu uma madrasta, dessas que se vê em livros de conto de fadas e dão toda a carga negativa para quem se coloca no papel de mãe emprestada.</p>
<p>Pediu asilo na casa de uma tia na Ilha de Itaparica e precisava vender pastel na praia para ajudar nas despesas. Com uns 14 anos de idade, resolveu partir sem adeus. Guardou os quatro últimos pastéis num saco, jogou o balaio no mar e usou o dinheiro da féria para comprar a passagem de ferry boat para Salvador. Chegou em Água de Meninos com a roupa do corpo. O local mais agradável que achou ali por perto foi o mercado de frutos do mar, quando ainda não estava reformado.</p>
<p>Sérgio, errante no mundo, comprou a si mesmo nas mãos do pai biológico. Morou na marquise do mercado só com o cuidado de ligar a cobrar para a tia em Itaparica, avisando que tinha fugido de casa. Um mês depois, ela descobriu, pela conta telefônica, que o menino tinha ido para Salvador. Aí entra o pai, que começou a fazer panfletos e anunciar na rádio para saber o destino do foragido. Cem dias depois, o pai surge. Sua primeira frase ao menino, na entrada do mercado: “você sumiu, eu tive que  o menino, na entrada do mercado:stel na praia para ajudar nas despesas. crever um livro. ues gastar muito dinheiro na busca&#8221;. “Pra mim, aquilo foi pior do que a morte de minha mãe”, recorda Sérgio, tomando mais um gole de cerveja. “Perguntei a ele quanto tinha gastado comigo, pedi um vale ao meu patrão e paguei de volta. Ele disse que não queria, mas foi logo embolsando o dinheiro”, relembra  ele, que engoliu a seco o reencontro, mas agora esvazia uma garrafa inteira. </p>
<p>Nesta época, já estava empregado como carregador de peixe, ganhando R$30 por semana. Antes, passara noites de angústia e cólicas abdominais, por causa da fome que devorava forças e entranhas. Hoje, já pode ir pra casa levando um saco com carne para temperar o bife do fim de semana. Comeria qualquer coisa porque viveu tempos da dor da penúria. Qualquer coisa, menos aipim, o alimento proibido desde que ficou seis meses na roça comendo macaxeira como café, almoço e janta porque não tinha outra opção. “Trabalho muito pra não precisar mais comer aipim”.</p>
<p>Capítulo 2: Camarão</p>
<p>Quando pediu trabalho no mercado, Sérgio era desacreditado pelo porte físico de faquir. Ninguém considerava a possibilidade de que pudesse carregar mais do que 20 quilos. Ficava se oferecendo para ajudar as pessoas em troca de um real ou dois, até que um dos carregadores faltou ao serviço e ele foi convocado sem o mínimo de gentileza: “Bora trabalhar, você é vagabundo?” “Não, sou homem trabalhador”, respondeu, com firmeza. Naquele momento, virou um assalariado, o suficiente para diminuir o peso do fardo mais cansativo que já suportava: o de morar sob a marquise.</p>
<p>Sérgio já era conhecido como Sem Terra, mas não queria esquecer o nome de ninguém que lhe ajudara. O primeiro patrão era Heráclito da Luz Queiroz, o Dadai. Ele que ofereceu a chance de sair da rua para dormir na fábrica de gelo na Barros Reis. Sem Terra lembra também do nome de Nelci Pinto Fonseca, o Gum, o segundo patrão, com quem ele já ganhava um salário mínimo, já podia ter uma casinha alugada. Passou a acreditar no sonho de ter o negócio próprio depois de conhecer Beto do Camarão, o rei do camarão em Maceió. Ele quem disse que o jovem levava jeito para lidar com dinheiro.</p>
<p>Sem Terra descobriu a delícia de manusear as cédulas e sentir o roçar de um bolo de notas pelos dedos. Acha que nasceu para isso, para esse momento de receber um pagamento do cliente, repassar uma parte para o fornecedor e ficar com uma quantidade que represente a própria remuneração. “Adoro ser comerciante, não tem coisa melhor do que mexer com dinheiro”.</p>
<p>Gostou tanto de mexer com dinheiro que aprendeu o valor do crédito. Pediu as contas no trabalho e investiu toda a rescisão (R$250) no aluguel do box 50 da feira, nove meses atrás. Nem sabia que é proibido arrendar o espaço do permissionário. Regularizou sua situação e conseguiu até que o box 13 passasse para a concessão da esposa, Heide. O seu cartão comercial informa que ele vende camarão, peixe, marisco e frutos do mar em geral e ainda entrega em domicílio. Sem Terra não tem veículo próprio. “Entrega mesmo?”, questiona o jornalista Ivan Cláudio, que viu mais do que um vendedor de marisco no jovem: enxergou uma sugestão de pauta. “Por que não?”, sugere, sem poder dar detalhes de seu rudimentar serviço delivery.</p>
<p>Hoje, que é sábado, ele vendeu 20 quilos de camarão por R$13. Adquire por R$9 e, descontados os custos de energia, gelo e do funcionário, o lucro é mínimo, mas o suficiente para ele pagar duas cervejas no fim do expediente, comprar um quilo de carne e ainda dar risada das desgraças do passado.</p>
<p>Capítulo 3: Bife</p>
<p>Outro benefício de sua profissão é ter crédito, coisa nunca permitida por sua condição de excluído social. Morando na rua, não era acreditado como gente, quanto mais como micro-empresário. “Se tem alguém que está abaixo de tudo é um sem-teto. Até o peão mais lascado do mundo, este mesmo me esculhambava”. Em sua nova vida, ele já era capaz de abrir o negócio sem um tostão, e ainda tomar R$600 em mercadorias do fornecedor para depois pagar com o resultado das vendas. </p>
<p>A auto-confiança no mundo dos negócios, ele não usa para as marisqueiras que vendem aratu e siri catado. Se pedem R$13 pelo quilo do produto, não tem coragem de pechinchar nem por um real a menos. “Você imagina o quanto elas têm que trabalhar para juntar um quilo de siri catado?”</p>
<p>Quem ganha dinheiro fica besta, aí está uma das máximas de Sem Terra. Quando vivia na pior, sobrevivendo de ordenados semanais de R$50, usava um relógio comprado no camelô por R$10. Foi só conseguir um rendimento melhorzinho para ousar comprar um relógio de R$200, desses que vendem em joalherias, com certificado de garantia e tudo. Pois o produto já quebrou três vezes em menos de dois meses. Sem Terra não tem coroa, mas aprimorou o visual com uma corrente dourada e grossa que desce pelo pescoço. Ele tem como tesouro o saco com bife que vai levando no ônibus para agradar a patroa Heide em casa.</p>
<p>Aí está o esboço do livro negro do peixeiro. Uma sinopse que pode até impressionar Rafael Ferreira de Jesus, seu funcionário na feira há cinco meses. Rafael o enxerga apenas como patrão, o rei. Quem compra uma porção de mariscos no box 50 ou no 13 – o castelo branco de azulejos do jovem imperador &#8211; não está apenas levando o ingrediente do almoço. Está também obtendo um pouco do reinado de Sem Terra, o monarca da sobrevivência.<em></em></p>
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	</item>
		<item>
		<title>Voltas que um sapato cansado precisa dar</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 19:21:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfil]]></category>
		<category><![CDATA[bebida]]></category>
		<category><![CDATA[desempregado]]></category>
		<category><![CDATA[desemprego]]></category>
		<category><![CDATA[injustiça social]]></category>
		<category><![CDATA[porteiro]]></category>
		<category><![CDATA[seu roque]]></category>

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		<description><![CDATA[A saga de Roque Nilson dos Santos, 52 maltratados anos de vida e um objetivo: voltar a trabalhar para reconstruir o lar Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Seu Roque, na obstinação dos famintos, chegou até uma lan house em espasmos de ansiedade para fazer o currículo. Ditou as referências e experiência profissional e saiu de lá com [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=125&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A saga de Roque Nilson dos Santos, 52 maltratados anos de vida e um objetivo: voltar a trabalhar para reconstruir o lar </em></p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing"><strong><em>Pablo Reis (pabloreis@gmail.com)</em></strong></p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing">Seu Roque, na obstinação dos famintos, chegou até uma lan house em espasmos de ansiedade para fazer o currículo. Ditou as referências e experiência profissional e saiu de lá com uma folha de A4 impressa, arrumadinha, é bem verdade, e com 12 reais a menos no minguado patrimônio. Até aqui, ele é mais um desempregado na região metropolitana de Salvador, mas até o final da história de dramas, tragédias e gargalhadas involuntárias, seu Roque vai ganhar sobrenome, empatia, um rascunho de biografia com rápidos capítulos, até algumas explicações. E talvez você se sinta mal por um dia ter dado um não a seu Roque ou alguém que se assemelhe.</p>
<div id="attachment_126" class="wp-caption alignleft" style="width: 250px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/02/seu-roque.jpg"><img class="size-medium wp-image-126" title="Seu Roque" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/02/seu-roque.jpg?w=240&#038;h=300" alt="" width="240" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Seu Roque, o próprio: entre o subúrbio e a cidade</p></div>
<p class="MsoNoSpacing">Seu portifólio é uma apresentação padronizada como a de milhares de Roques e Marias, que saem levando em envelopes pardos, todos os dias, do subúrbio em direção ao centro da metrópole, o Eldorado das carteiras assinadas. No cabeçalho, ao lado de onde se lê Roque Nilson dos Santos, a foto 3&#215;4 dele, um candidato a vigilante, zelador, no máximo porteiro de prédio, que apresenta como objetivo de emprego uma ementa que bem poderia estar na proposta de um concorrente no <em>reality show</em> O Aprendiz, de Roberto Justus (que se seu Roque conhecesse certamente diria que é um dotô de cabelo arrumado mesmo achando o contrário): “Contribuir com as empresas que busquem um profissional dinâmico e dedicado à prática de produzir soluções ágeis e seguras e que esteja apto a cumprir metas e objetivos, enfrentando e vencendo novos desafios”.</p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing"><strong><em>Fora da estatística</em></strong></p>
<p class="MsoNoSpacing">Apesar das notícias divulgadas no final de 2009 de redução histórica no nível de desemprego da Região Metropolitana de Salvador, seu Roque continua à margem. Pouco importa se a pesquisa da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia indica que desde 1996 nunca tanta gente esteve empregada na capital. Ainda assim, 17,8% da população sofrem pela falta de oportunidade. Significa que a cada seis pessoas em idade economicamente ativa uma não tem serviço, nem mesmo temporário, ou biscate, ou algo que garanta o mínimo de renda. Seu Roque está ali na frente, bem mais palpável que uma estatística, precisando de uma ocupação de meio turno que pague o transporte e a comida do dia seguinte, já que o almoço foi garantido na casa de uma patroa. Mais por misericórdia do que necessidade, ele ganha um lugar para fazer uma faxina que tentou em seu próprio aspecto.</p>
<p class="MsoNoSpacing">Há quase 18 horas, não sabe o que é banho, desde quando ontem pagou dois reais pelo corte de cabelo e para fazer a barba de forma impecável. Colocou uma calça surrada, mas de modelo tradicional, e uma camisa de botão. Saiu com uma mala pouco maior do que uma pochete decidido a trazer dentro dela o crachá de funcionário ainda com o nome PROVISÓRIO. Mais de outras 20 vinte vezes partiu da casa de número 5, na rua da Camboja, em Ilha Amarela, um bairro suburbano na divisa de Salvador com Simões Filho, com a mesma determinação. Voltou à noite, cheio de avisos para aguardar uns 15 dias.</p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing"><strong><em>Todo dia sempre igual</em></strong></p>
<p class="MsoNoSpacing">Desta vez, percorreu a Pituba inteira, desceu até o Rio Vermelho e Amaralina e ainda teve fôlego para chegar na Avenida Vasco da Gama em apenas uma manhã, sem direito a almoço. O mais próximo de um sim que ouviu foi: “contratamos um no último dia 7, mas pode deixar seu currículo aí”. E pela 14ª vez em uma manhã, depositou o currículo feito na Lan House. “Pensei em ir na prefeitura também, mas dizem que esse negócio de carta de vereador ninguém está mesmo olhando nas empresas”, resume, com a voz trêmula de quem se envergonha de incomodar o outro com a própria fala. Chegar ao nível de um pedido é um esforço que franze a testa, encolhe a caixa torácica e vai expulso como uma tosse: ufa, ainda bem que saiu de mim esse desejo e agora cabe a você se envergonhar de dizer não.</p>
<p class="MsoNoSpacing">Seu Roque não sabe o que é twitter e nem esta revista gostaria de fazer qualquer pegadinha a respeito. Provavelmente, na primeira vez em que alguém lhe perguntar o que seja, ele vai responder com o ar magnânimo de um guru acostumado a lavar carro duas ou três vezes por semana: ô meu patrão, é aquela caixinha de som que fica na táubua do porta-malas.</p>
<p class="MsoNoSpacing">Seu Roque também não imagina o que seja uma balada, desconhece o significado de aquecimento global, nunca ouviu falar de camada Pré-Sal e não lembra em quem votou nas últimas eleições para deputado. Nessas questões políticas, ele torce muito pelo presidente dos Estados Unidos, negão como a gente, seu Barata Obama.</p>
<p class="MsoNoSpacing">Certa vez, fingiu muito mal gostar de uma quesadilla mexicana, recheada com o melhor queijo brie, peito de peru e salada. Mastigou um pouco, disfarçou a saída e cuspiu toda a garfada antes de voltar ao bom, velho e de sabor seguro feijão com farinha. Enquanto o fígado de seu Roque aceita velhas e novas experiências, o estômago parece não muito confortável com inovações.</p>
<p class="MsoNoSpacing">E para que tudo não fique concentrado apenas no sentido do paladar, tem a questão da audição de seu Roque, que não é das melhores assim como o olfato. Ou ele não ouve perfeitamente ou é possuidor de uma capacidade invejável de sublimar experiências auditivas constrangedoras. Qualquer pessoa que se dirija a ele com uma pergunta, ele responde com o sorriso sem vida e o constante: sim, meu patrão. Do mesmo jeito que se atacarem com um xingamento, ele reage da mesma forma, ou se avisarem que ele é vítima de um sequestro, ou que o Bahia foi campeão, ou que o bolsa-família foi cortado, ou que seu tataravô era embaixador da Namíbia, ou que ele ganhou na mega-sena. Tudo vem acompanhado do mesmo riso desprovido de substância e o “sim, meu patrão’.</p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing"><strong><em>Dor de amor</em></strong></p>
<p class="MsoNoSpacing">Seu Roque ultimamente padece de uma desilusão amorosa, mas é quase certo que este termo se aplique melhor ao sentimento da ex-mulher dele, que resolveu sair de casa depois de tentar, sem sucesso, ser mais que a outra. Por um bom tempo, ela até aguentou a humilhação de estar em segundo plano, de ver o pai de seus filhos entregue às perturbações de uma destruidora de lares. A esposa suportou uns bons anos, mas há seis meses deixou a casa e de sua boca praticamente saiu um “ou ela, ou eu”. A decisão ficou pra seu Roque, que até o momento está mais para o “ela”.</p>
<p class="MsoNoSpacing">O matrimônio, é bem verdade, não foi abalado por alguma mulata vaporosa da Ilha Amarela, ou aquele tipo de Lolita em trajes mínimos de sugerir marca de biquíni que se transforma na paixão para a vida toda durante 90 dias. “Ela” é o modo de se referir à bebida, a companheira que se tornou a traição na vida de seu Roque, com sua sedução a goladas e aquela saudade implacável que bate de tempos em tempo.</p>
<p class="MsoNoSpacing">Contado desse jeito, até parece que seu Roque fez uma escolha, optou pela boemia contra os deveres de provedor da casa. Mas conversando com ele dá para perceber que não foi bem uma decisão, mas uma imposição psicológica e orgânica. “Meu patrão, eu te digo, semana que vem vou chegar aqui normal, dizendo ao senhor, estou em ordem para trabalhar”, promete, com uma voz meio vacilante, meio tiririca. E a promessa vale apenas até a semana que vem quando ele encontrar com algum porteiro de prédio, zelador, que ignorando ser uma má influência vá convidá-lo para dividir duas cervejas ou comprar um par de cigarros (“um meu e um seu”).</p>
<p class="MsoNoSpacing">Enquanto isso, vai ficando mais distante o retorno da esposa, que deixou claro que uma casa com cheiro de refluxo azedo de aguardente em estômago vazio (apesar de ser um estado gasoso) não tem espaço para ela. “Não é que eu seja apaixonado, mas é que desde que ela foi embora eu já não sou o mesmo”, resmunga, para depois ouvir que ele precisa dar a volta por cima e se recuperar antes de qualquer tentativa de reconciliação.</p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing"><strong><em>Paralisia social</em></strong></p>
<p class="MsoNoSpacing">Seu Roque é um cidadão sem voz na selva de pedra. E muitas vezes essa constatação obedece a critérios literais. Como outro dia em que entrou na área de serviço da casa de uma cliente apenas para pegar alguns baldes, esponjas e flanelas para lavar o carro da vítima e em poucos minutos de solidão, distração e gafes, conseguiu soltar a pedra de granito que servia como estante da mulher e ficar um tempo maior do que a ação de um lava-jato segurando a peça de 20 quilos, imóvel, impassível e – o que é pior – totalmente aterrorizado. E ali ficaria pelas horas derradeiras da tarde, entraria a noite e amanheceria na mesma posição até que desmaiasse de desnutrição, ou que deixasse a pedra cair em função do <em>delirium tremens</em> – o que acontecesse primeiro. Só que uns 20 minutos depois a dona ficou incomodada com o silêncio e a aparente calmaria e resolveu checar a situação, encontrando a seguinte cena: um homem de perfil, gotejando suor pela testa, olho fixo em um suporte de metal entortado, se tremendo do crânio até os metatarsos, passando por pescoço, omoplata, úmero e mãos, tentando equilibrar dois baldes de roupa suja, uma máquina de costura relíquia da família, um pacote de 15 quilos de ração pra cachorro e um estojo com alguns pregadores de roupa e com a aparência aflita de quem pensa: Meu Deus do céu, por que eu fui sair de casa hoje? “Ô, dona Lídis, o negócio desmontou sozinho”. “Seu ROQUEEEEE, que inferno é esse&#8230; você vai destruir minha máquina de costura”.</p>
<p class="MsoNoSpacing">Esse seria o retorno profissional de seu Roque, depois de três dias internado no Hospital Santo Antônio, das Obras Sociais Irmã Dulce. Ele se recusou a entrar em detalhes sobre o motivo da baixa médica, mas os convivas sugerem que o corpo de nenhum ser humano resistiria mais tempo apenas movido a combustível de alta octanagem. Resumindo, se seu Roque fosse um carro, seria um modelo popular de carroceria bem maltratada, precisando fazer uma revisão periódica e, assim, como no automóvel, do filtro de óleo arrasado, o fígado dele precisando de uma limpeza, uma descarbonização, uma purificação ou qualquer outro procedimento revitalizador.</p>
<p class="MsoNoSpacing">
<p class="MsoNoSpacing"><strong><em>Fala, Roque</em></strong></p>
<p class="MsoNoSpacing">Na reincidência de paciente de uma moléstia indeterminada – um mal que não ousa dizer o nome -, retornou do PAM de Roma ontem para receber o celular pedido como recompensa pela cessão de direitos de imagem. A figura de seu Roque em uma revista de circulação mínima vale um telefone doado pelo terapeuta Moacir Alberto Oliveira, quando muito 20 reais em créditos e um novo chip.</p>
<p><span style="font-size:11pt;line-height:115%;font-family:&amp;">Toma, seu Roque, o instrumento de conexão com o mundo civilizado. Receba, com os votos de que ali vai chegar o sinal para a inserção no mercado de trabalho. Quando o 9118-7844 tocar pode não ser engano, pode ser uma chamada para a nova vida. Pode ser o chamado. E se isso ainda não aconteceu, ele vai seguindo diariamente do subúrbio para a cidade, driblando “a outra”, em busca de uma ocupação. Assim como o tempo, seu Roque não pára.</span></p>
<p><span style="font-size:11pt;line-height:115%;font-family:&amp;"><em>* Manchete da prestigiada revista Seu Roque, a publicação mais influente do Norte-Nordeste de Amaralina (www.revistaseuroque.blogspot.com)</em><br />
</span></p>
<div id="_mcePaste" style="overflow:hidden;position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Seu Roque, na obstinação dos famintos,<br />
chegou até uma lan house em espasmos de<br />
ansiedade para fazer o currículo. Ditou as<br />
referências e experiência profissional e<br />
saiu de lá com uma folha de A4 impressa,<br />
arrumadinha, é bem verdade, e com 12<br />
reais a menos no minguado patrimônio. Até<br />
aqui, ele é mais um desempregado na<br />
região metropolitana de Salvador, mas até<br />
o final da história de dramas, tragédias e<br />
gargalhadas involuntárias, seu Roque vai<br />
ganhar sobrenome, empatia, um rascunho<br />
de biografia com rápidos capítulos, até<br />
algumas explicações. E talvez você se sinta<br />
mal por um dia ter dado um não a seu<br />
Roque ou alguém que se assemelhe.<br />
Seu portifólio é uma apresentação<br />
padronizada como a de milhares de Roques<br />
e Marias, que saem levando em envelopes<br />
pardos, todos os dias, do subúrbio em<br />
direção ao centro da metrópole, o<br />
Eldorado das carteiras assinadas. No<br />
cabeçalho, ao lado de onde se lê Roque<br />
Nilson dos Santos, a foto 3&#215;4 dele, um<br />
candidato a vigilante, zelador, no<br />
máximo porteiro de prédio, que<br />
apresenta como objetivo de emprego<br />
uma ementa que bem poderia estar na<br />
proposta de um concorrente no reality<br />
show O Aprendiz, de Roberto Justus (que<br />
se seu Roque conhecesse certamente<br />
diria que é um dotô de cabelo arrumado<br />
mesmo achando o cont rár io) :<br />
“Contribuir com as empresas que<br />
busquem um profissional dinâmico e<br />
dedicado à prática de produzir soluções<br />
ágeis e seguras e que esteja apto a<br />
cumprir metas e objetivos, enfrentando<br />
e vencendo novos desafios”.<br />
Fora da estatística &#8211; Apesar das notícias<br />
divulgadas no final de 2009 de redução<br />
histórica no nível de desemprego da<br />
Região Metropolitana de Salvador, seu<br />
Roque continua à margem. Pouco importa se a<br />
pesquisa da Superintendência de Estudos<br />
Econômicos e Sociais da Bahia indica que<br />
desde 1996 nunca tanta gente esteve<br />
empregada na capital. Ainda assim, 17,8% da<br />
população sofrem pela falta de oportunidade.<br />
Significa que a cada seis pessoas em idade<br />
economicamente ativa uma não tem serviço,<br />
nem mesmo temporário, ou biscate, ou algo<br />
que garanta o mínimo de renda. Seu Roque<br />
está ali na frente, bem mais palpável que uma<br />
estatística, precisando de uma ocupação de<br />
meio turno que pague o transporte e a comida<br />
do dia seguinte, já que o almoço foi garantido<br />
na casa de uma patroa. Mais por misericórdia<br />
do que necessidade, ele ganha um lugar para<br />
fazer uma faxina que tentou em seu próprio<br />
aspecto.<br />
Há quase 18 horas, não sabe o que é banho,<br />
desde quando ontem pagou dois reais pelo<br />
corte de cabelo e para fazer a barba de forma<br />
impecável. Colocou uma calça surrada, mas<br />
de modelo tradicional, e uma camisa de<br />
botão. Saiu com uma mala pouco maior do que<br />
uma pochete decidido a trazer dentro dela o<br />
crachá de funcionário ainda com o nome<br />
PROVISÓRIO. Mais de outras 20 vinte vezes<br />
partiu da casa de número 5, na rua da<br />
Camboja, em Ilha Amarela, um bairro<br />
suburbano na divisa de Salvador com Simões<br />
Filho, com a mesma determinação. Voltou à<br />
noite, cheio de avisos para aguardar uns 15<br />
dias.<br />
Todo dia sempre igual &#8211; Desta vez, percorreu<br />
a Pituba inteira, desceu até o Rio Vermelho e<br />
Amaralina e ainda teve fôlego para chegar na<br />
Avenida Vasco da Gama em apenas uma<br />
manhã, sem direito a almoço. O mais próximo<br />
de um sim que ouviu foi: “contratamos um no<br />
último dia 7, mas pode deixar seu currículo<br />
aí”. E pela 14ª vez em uma manhã, depositou o<br />
currículo feito na Lan House. “Pensei em ir na<br />
prefeitura também, mas dizem que esse<br />
negócio de carta de vereador ninguém está<br />
mesmo olhando nas empresas”, resume, com<br />
a voz trêmula de quem se envergonha de<br />
incomodar o outro com a própria fala. Chegar<br />
ao nível de um pedido é um esforço que franze<br />
a testa, encolhe a caixa torácica e vai expulso<br />
como uma tosse: ufa, ainda bem que saiu de<br />
mim esse desejo e agora cabe a você se<br />
envergonhar de dizer não.<br />
Seu Roque não sabe o que é twitter e nem<br />
esta revista gostaria de fazer qualquer<br />
pegadinha a respeito. Provavelmente, na<br />
primeira vez em que alguém lhe perguntar o<br />
que seja, ele vai responder com o ar<br />
magnânimo de um guru acostumado a lavar<br />
carro duas ou três vezes por semana: ô meu<br />
patrão, é aquela caixinha de som que fica na<br />
táubua do porta-malas.<br />
Seu Roque também não imagina o que seja<br />
uma balada, desconhece o significado de<br />
aquecimento global, nunca ouviu falar de<br />
camada Pré-Sal e não lembra em quem<br />
votou nas últimas eleições para deputado.<br />
Nessas questões políticas, ele torce muito<br />
pelo presidente dos Estados Unidos, negão<br />
como a gente, seu Barata Obama.<br />
Certa vez, fingiu muito mal gostar de uma<br />
quesadilla mexicana, recheada com o<br />
melhor queijo brie, peito de peru e salada.<br />
Mastigou um pouco, disfarçou a saída e<br />
cuspiu toda a garfada antes de voltar ao<br />
bom, velho e de sabor seguro feijão com<br />
farinha. Enquanto o fígado de seu Roque<br />
aceita velhas e novas experiências, o<br />
estômago parece não muito confortável com<br />
inovações.<br />
E para que tudo não fique concentrado<br />
apenas no sentido do paladar, tem a questão<br />
da audição de seu Roque, que não é das<br />
melhores assim como o olfato. Ou ele não<br />
ouve perfeitamente ou é possuidor de uma<br />
capacidade invejável de sublimar<br />
experiências auditivas constrangedoras.<br />
Qualquer pessoa que se dirija a ele com uma<br />
pergunta, ele responde com o sorriso sem<br />
vida e o constante: sim, meu patrão. Do<br />
mesmo jeito que se atacarem com um<br />
xingamento, ele reage da mesma forma, ou<br />
se avisarem que ele é vítima de um<br />
sequestro, ou que o Bahia foi campeão, ou<br />
que o bolsa-família foi cortado, ou que seu<br />
tataravô era embaixador da Namíbia, ou que<br />
ele ganhou na mega-sena. Tudo vem<br />
acompanhado do mesmo riso desprovido de<br />
substância e o “sim, meu patrão&#8217;.</div>
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		<title>Carlitos está sem pancake</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jan 2010 13:59:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfil]]></category>
		<category><![CDATA[artista de rua]]></category>
		<category><![CDATA[barra]]></category>
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		<category><![CDATA[chaplin]]></category>
		<category><![CDATA[gildenor]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
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		<description><![CDATA[Gildenor Oliveira, o Chaplin do skate, está querendo largar a arte de rua; sonha em ser garçom Pablo Reis (pabloreis@gmail.com) Quando o Chaplin do skate, um dos artistas de rua mais longevos de Salvador, com mais de duas décadas fazendo acrobacias e pigarreando labaredas, avisa que planeja uma aposentadoria é sinal de que há algo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=120&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Gildenor Oliveira, o Chaplin do skate, está querendo largar a arte de rua; sonha em ser garçom </em></p>
<p><strong>Pablo Reis (</strong><a href="mailto:pabloreis@gmail.com"><strong>pabloreis@gmail.com</strong></a><strong>)</strong></p>
<div id="attachment_121" class="wp-caption alignleft" style="width: 225px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/01/carlitos1.jpg"><img class="size-full wp-image-121" title="carlitos1" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/01/carlitos1.jpg?w=600" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Riso forçado, Gildenor disfarça a tristeza sempre oculta por pancake</p></div>
<p>Quando o Chaplin do skate, um dos artistas de rua mais longevos de Salvador, com mais de duas décadas fazendo acrobacias e pigarreando labaredas, avisa que planeja uma aposentadoria é sinal de que há algo de errado com os tempos modernos. Seria como dona Canô, de repente, abrir mão de suas novenas, ou o maestro Fred Dantas renegar frevos e dobrados e ainda o professor Roberto Albergaria resolver abdicar de dos seus neologismos lambuzados de deboche e desdenhosos de erudição. Pois o Chaplin do skate, uma lenda noturna nômade entre a boemia da Barra, Rio Vermelho e Pituba, acha que está na hora de pendurar o paletó, esquecer a bicicleta de mil malabarismos e o gosto ferruginoso do querosene que sempre leva à boca. Tudo que ele mais gostaria era de um emprego formal. Aos 50 anos, sonha com a carteira assinada como garçom.</p>
<p>Definitivamente, as coisas não devem estar nada boas para o Chaplin do skate decidir que seu último ato está próximo. Chaplin do skate é uma denominação arbitrária adotada pela imprensa momesca logo que ele começou a fazer estripulias pelos circuitos de carnaval de Salvador apoiado na tábua estreita com quatro rodinhas. Ele também pode ser chamado de o Carlitos da Barra, ou o Charles Chaplin engolidor de fogo. Seu trabalho itinerante é conhecido há 20 anos dos clientes de bares e restaurantes que se encantam com a técnica para cuspir chamas, uma nova versão incandescente de luzes da cidade.</p>
<p>Por trás da maquiagem cada dia mais escassa, entretanto, Gildenor Ferreira de</p>
<div id="attachment_122" class="wp-caption alignright" style="width: 296px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/01/carlitos2.jpg"><img class="size-medium wp-image-122" title="carlitos2" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/01/carlitos2.jpg?w=286&#038;h=300" alt="" width="286" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Equilíbrio forçado a muito custo, ele quer ser garçom</p></div>
<p> Oliveira, pai de três filhos, não está se sentindo mais tão prestigiado. “Ultimamente, o negócio ta fraco, não tá mais dando, não”, entrega-se o artista, sem demonstrar rancor, apenas um pouco de desilusão. Consegue, em média, 20 reais por noite, de quinta a domingo, o mínimo necessário para sobreviver, ao lado da companheira dos últimos cinco anos, Elissandra. “Tem muita gente concorrendo e os clientes não são mais tão generosos”, aponta.</p>
<p><strong>Desarmado e lamurioso </strong></p>
<p>Há mais de dois meses, a bicicleta está parada por causa de um banal pneu furado (“a câmara também estourou”) que ele não tem dinheiro para consertar. O skate, nem se fala. Desde que foi esmagado por um carro, há mais de um ano, não há qualquer possibilidade financeira de compra de um novo. “Tô sem arma de trabalho. Tô desarmado”, lamenta Gildenor.</p>
<p>Do seu arsenal artístico, resiste apenas o querosene, que funciona como combustível de seu sopro de dragão. “O médico já disse que eu posso ter um câncer de garganta ou de pele, mas já tem 20 anos que faço isso e não tenho nada”, ameniza ele, que anda cuspindo fogo por aí, mas é incapaz de dizer um só palavrão. Só que se o querosene não tem o aroma e nem o sabor dos melhores, o mesmo não pode ser dito sobre a aguardente de marca 51 que o nosso Chaplin acrobata ministra a goladas. Toma três ou quatro doses todo dia e garante que se tiver o litro inteiro ele também bebe. Há algo de muito mais melancólico nesse Carlitos bicombustível do que o original que fazia chorar contracenando com aquele garotinho mudo em cenas em preto e branco.</p>
<p><strong>Falência negra</strong></p>
<div id="attachment_123" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/01/carlitos3.jpg"><img class="size-medium wp-image-123" title="carlitos3" src="http://correlatos.files.wordpress.com/2010/01/carlitos3.jpg?w=300&#038;h=198" alt="" width="300" height="198" /></a><p class="wp-caption-text">Labaredas de melancolia: Carlitos expele fogo das entranhas</p></div>
<p>Na rua Churupita, uma viela de acesso tortuoso, no Matatu de Brotas, a fachada pintada de preto anuncia o Bar do Chaplin. É a entrada da residência do artista, que já se aventurou como micro-empresário do ramo do entretenimento de baixo custo. O estabelecimento, ele faz questão de justificar antes de qualquer pergunta, “faliu”. Só que uma conversa daqui e outra dali, ele explica que resolveu fechar por causa de freqüentadores de mente aberta e pulmões turbinados de seus próprios delírios gasosos. Para evitar problemas futuros com a polícia e uma classificação como boca-de-fumo, ele preferiu abandonar o negócio.</p>
<p>O mesmo tipo de abandono discreto e silencioso que está planejando agora. Desde que se entende por gente, quando era adolescente, em Neópolis, Sergipe, passou a ganhar uns trocados com as artimanhas mambembes. Na época da febre do conjunto Secos e Molhados, por 1973, os amigos se fantasiaram no carnaval com maquiagens berrantes. Ele apelou para o ídolo do cinema, aquele que fora o grande ditador dos sorrisos em sua infância. Passou porcelana de prato para embranquecer o rosto e pintou um bigodinho com carvão mesmo. Virou um sósia.</p>
<p>Em 1976, quando se mudou para o bairro de Cosme de Farias, em Salvador, foi frentista, gari, balconista e garçom até que, desempregado, percebeu que o trabalho de sua vida estava mesmo naqueles saltos com bicicleta, naquela pirotecnia de encantar qualquer bebum.</p>
<p>Criou os três filhos sob a quentura do querosene e do smoking, mas sempre com o frescor da realização pessoal. Agora, pensa em arrumar uma sinecura como garçom para largar desta vida. Também pudera, a bicicleta está parada há tanto tempo por causa de um mísero pneu furado e ele tem que ir caminhando por toda a orla para poder encontrar com uma clientela a cada dia menos generosa.</p>
<p><strong>Pastor de Almas</strong></p>
<p>Fã do cineasta e intérprete de películas como <em>Pastor de Almas</em> e <em>O Circo</em>, Gildenor sequer lembra o nome de filmes de Carlitos que tenha assistido. Na verdade, ele só tem a inspiração mesmo na questão visual. “Não sou ator, não tenho vocação para isso. Não tenho cultura para enfrentar um teste ou até mesmo decorar texto”, admite ele, que estudou até a 7ª série. “Ficaria contente com um empregozinho de garçom”.</p>
<p> Como já se viu por suas preferências etílicas, ficar de cara limpa só deve ser uma de suas prioridades na interpretação literal. Porque, no sentido figurado, ficar de cara limpa não é bem o que ele gosta de fazer em suas diárias fugas alcoólicas. A companheira Elissandra, que é mais nova do que ele, entrega que ele anda dormindo muito durante o dia, ao contrário de quando ia até a praia fazer uns exercícios e aprimorar a forma.</p>
<p>Há uns dois meses, Chaplin do skate está sem pancake (ou pó compacto), está sem o lápis preto de sobrancelha que usa para desenhar os pelos sobre os lábios (“porque se colocar bigode postiço, ele queima”). Não tem dinheiro para comprar tudo isso. Ele acha que a descaracterização está até prejudicando o trabalho, as pessoas não têm muita motivação para pagar um cachezinho. Em prol de um bom desempenho cênico, pede R$10 para comprar maquiagem. “Se não der para o pancake, eu compro pasta d´água mesmo”, consola-se. No fim, aceita seis vales-transporte para recuperar a cara pintada, algo que no câmbio negro do escambo ilegal pode valer em torno de R$9. Mesmo assim, avisa: vai prosseguir apenas até assinar a carteira como garçom. Se até Chaplin do skate – ou Carlitos equilibrista, o que preferir – quer desistir é porque há algo de muito errado com esses tempos modernos.</p>
<p><em>* Essa reportagem foi feita em 2005. No dia 3 de janeiro de 2010, Gildenor foi assassinado com 10 tiros no Bar de Pelé, a poucos metros de casa. Ele pediu uma cerveja depois do uma noite inteira de trabalho e nem chegou a beber o primeiro gole. Foi alvejado por 10 tiros no peito e cabeça disparados por seis homens. A suspeita é de que os traficantes quiseram calar a voz e o talento do Chaplin do skate. </em></p>
<br /> Tagged: artista de rua, barra, carlitos, chaplin, gildenor, morte, pancake <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/correlatos.wordpress.com/120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/correlatos.wordpress.com/120/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=correlatos.wordpress.com&amp;blog=10180914&amp;post=120&amp;subd=correlatos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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